Você tem medo de quê?

Recentemente recebemos a visita do monstro dos sentimentos, um monstrengo feito pelas crianças da escola que meus pequenos estudam. Recebemos o monstro, juntamente com um livro, explicando que nosso novo amigo mudava de cor, dependendo do seu sentimento, ou seja, triste/azul, raiva/vermelho, medo/preto, calmo/verde, amor/rosa e, assim por diante. Uma maneira lúdica e genial para os pequenos entenderem as emoções, já que se trata de algo subjetivo, difícil de ensinar.
Como tema, foi necessário instigar e questionar sobre cada um dos sentimentos, gerando um momento muito gostoso em família, inclusive, de reflexão. O Raul, cinco anos de vida, relatou que sentiu medo no dia que, sem querer, se trancou no banheiro da casa da vovó. Disse ter ficado triste, pois achou que nunca mais sairia daquele lugar. Pediu para a mamãe, não ficar vermelha (ou seja, sentimento da raiva), porque ele gostava mais de mim, verde (ou seja, calma). 
Um simples tema, trouxe à tona uma conversa séria, sem que as crianças percebessem o que estava acontecendo de fato, em volta de nossa mesa de jantar. Estávamos revendo nossas atitudes, entendendo como as crianças nos percebem, e, como nosso comportamento as afetam. Incrível como as crianças possuem um dom extraordinário de nos fazer pensar e refletir, de querer mudar, de querer ser uma pessoa melhor. Foi ali, lendo o manual do monstro amigo, que avistei um desenho do meu guri, por trás de uma cortina picoteada em tiras de papel na cor marrom, que estavam escondidos os seus medos: a bruxa, o gigante e o bandido. 
Meu filho, 5 anos, ele tem medo do bandido! No seu desenho, o pai estava ao seu lado, para sua proteção. Olhando para esses medos que meu coração partiu. Que mundo é esse, onde crianças de 5 anos demonstram medo por pessoas más, e, a sua maneira, já entendem de violência, de maldade, de dor? A bruxa, o gigante, vampiro, monstro, seja lá o que for, do mundo imaginário e fantasioso, podemos sim, protegê-lo, até porque, um dia ele irá crescer e esses medos desaparecerão, mas o medo do que é real, do que não está ao nosso alcance, do medo que também é nosso, que tentamos inutilmente lutar contra ele. Como se faz?
A violência parece ter ficado mais assustadora após a maternidade. Ao me deparar com notícias de maus tratos, abusos sexuais, abandono, ou qualquer outro ato de maldade, contra crianças inocentes, me afetam de tal forma, que é impossível ficar imune ou indiferente a estes acontecimentos. Atos cruéis, muitas vezes praticados por pessoas que deveriam zelar, proteger e acima de tudo amar, me fazem querer proteger e cuidar ainda mais dos que são próximos a mim. Fazem eu me envolver em campanhas de solidariedade, a olhar para o outro com mais compaixão, fazem eu estender a mão para quem eu nem conheço, fazem com que eu pratique o bem, fazem eu querer ser agente de mudança.
Meus filhos merecem um mundo melhor, eles merecem um futuro sem bandidos em seus temas escolares. Um mundo onde adultos não ateiem fogo em outras pessoas, que pais e mães não violentem crianças inocentes e indefesas, um mundo com respeito por todas as crenças, sem guerras por religiões, onde todas as raças sejam apenas uma: a raça humana! Que todas as pessoas sejam livres para sonhar e amar. Um mundo onde nenhuma pessoa faça mal para outro, nem a si próprio. Menos depressão, mais evolução. Menos rancor, mais calor humano, mais perdão, mais gratidão. 
Menos vermelho, menos azul, menos preto, mais verde, mais rosa. Assim terminamos o nosso tema de casa, na presença ilustre do “Monstro dos sentimentos”, que de monstro não tinha nada, afinal, nos ensinou sobre emoções, muito mais do que ele mesmo poderia imaginar!

Manuela de Godoy Gaspari

Obrigada Profe Andréia Schiavo Cesa, por proporcionar atividades que nos fazem pensar!