Vamos fazer um caminho diferente?

Vamos fazer um caminho diferente? Seguidamente o Raul lança esse pedido enquanto seguimos no caminho para a escola, ou quando voltamos cansados de mais um dia de atividades. A Cecília sempre concorda, repete a mesma fala e ele a chama de papagaio, ela repete a mesma frase todas às vezes: “Não sou papagaio, sou Cecília” e assim os dois caem na gargalhada.

Então, mudo alguma rua no trajeto, faço uma quadra a mais, dobro por outra esquina, enfim, uso da minha criatividade para agradar esse simples pedido, não me custa nada e alegra nossos dias.

Eis um hábito que eu não tinha antes de ser mãe. Mudar a trajetória, descobrir novos caminhos, olhar para outras paisagens mesmo que próximas, mesmo que durante minha rotina. E fiquei pensando o que mais mudou na minha vida, após ter sido mãe. Ri comigo mesma, pensando o quê na verdade, não mudou na minha vida?

1º) sapatos! Esse é básico, afinal, se equilibrar em um salto, ainda mais quando este é fino, com um bebê no colo, exige muita capacidade motora, equilíbrio, persistência, vontade, fé em Deus que tudo vai dar certo e que você não vai torcer o pé e parar em um pronto atendimento!

2ª) roupas! Provar roupa é divertido, porque além de se olhar no espelho, precisa confirmar se não ficará de bumbum de fora na hora de colocar o bebê na cadeirinha do carro, se não irá ficar de peito de fora ao se abaixar, se conseguirá amamentar e por aí vai.  Dependendo da roupa, se você amou uma peça mesmo não cumprindo o seu papel de “roupa mamãe”, novamente tenha fé em Deus que a chupeta não caia, assim, não será necessário se abaixar, ou que ele não vomite nela!

3ª) Brincos e demais acessórios! Não abri mão de coisas que gosto de usar, porém, no dia-a-dia, confesso que é trabalhoso manter um brinco maior ou um colocar mais elaborado. Então, precisei optar por algo menor, mais “mamãe”. Correntinhas frágeis então, as crianças adoram arrebentá-las!  Mesmo assim, em algumas ocasiões eu insisti e claro, com fé em Deus, enquanto as crianças eram bebês, nenhuma pendurou-se neles, minhas orelhas seguem intactas.

4ª) Tempo do banho! Oi? Jura que tem mãe que toma um banho demorado? Muitas vezes sorrimos agradecidas somente pelo fato de conseguirmos tomar banho! Fé em Deus que um dia você tomará aquele banho demorado sem que a porta abra de repente.

5ª) Dormir um noite inteira! Com a idade dos meus pequenos, obviamente que eles não acordam mais todas as noites, porém, o sono não é mais o mesmo, eu ouço até coisas que não existem. Isso quando a Cecília não aparece na porta do quarto descabelada em uma versão assustadora de “O Chamado”. Criança pequena acordada em plena madrugada escura em pé ao lado da sua cama, sabe ser assustador, acredite!

6º) Pensar em não apavorar outras mulheres que querem ser mães enquanto descrevo alguma situação ou conto alguma história!

Por favor futuras mães, não me entendam mal, eu amo, amo, amo ser mãe, mas essa aventura sabe ser absurdamente prazerosa e assustadora simultaneamente.

7ª) Ter certeza que essas e todas as demais mudanças que a maternidade me proporcionou, me fizeram ser uma pessoa melhor!

Penso nas minhas idas e vindas da escola para casa, da casa para escola. Exatamente no mesmo ponto do caminho os dois gritam “bom dia sol”, mesmo nos dias de chuva! E então, ao passar em frente a uma casa velhinha de madeira eles exclamam: “a casa da bruxa”, e ao ver uma nuvem mais escura por suas janelas eles me avisam “vai chover, olha a cor da nuvem”, sem contar as discussões quando percebem que a lua está ao lado da janela de um e o outro não pode contemplá-la, a menos que eu faça uma curva e misteriosamente a lua muda de lado!

Tudo isso não aconteceria se eu não fosse mãe!

Podemos mudar muitas coisas, das mais simples até as mais complexas, mas a maior das mudanças está em nosso modo de ver o mundo, nossos olhares para os detalhes. É se divertir com a ingenuidade e com a espontaneidade das descobertas diárias.

É mudar o caminho e contemplar uma nova paisagem, é contemplar sua nova imagem, é virar a página, é a possibilidade de redefinir seus planos, é encorajar-se, é ter alguém que faça você movimentar-se, sair no marasmo, do sacarmos, do fracasso. É ter uma causa! É sim, uma mudança da alma!

Amanhã vamos por outra rua, filho?

Sim, por favor, diz a Cecília, imitado a Peppa Pig!

E assim, chegamos em casa.

 

Manuela de Godoy Gaspari