Em tempos de pandemia.

Ontem à noite teve birra na hora do banho, para escovar os dentes, secar os cabelos. Teve choro, lágrimas, soluços. Cansaço! Coloquei a Cecília na cama, cheirosa, com seus cabelos macios, de pijamas rosa Pink embaixo da coberta, também rosa, porém, repleta de borboletas. Então limpei suas lágrimas, que haviam deixado seu rosto todo úmido, limpei seu nariz, e deitei ao seu lado de conchinha, explicando que ela estava cansada, que havia passado da hora dela dormir, que eu também estava cansada, mas que éramos muito amigas e por isso não havia necessidade para toda aquela briga na hora do banho, afinal, ela já conhecia nosso passo-a-passo de todas as noites. Não havia motivo para tal choro, a menos que houvesse outra coisa que ela quisesse me contar e que eu não sabia.

Foi quando ela disse “a vida era tão boa, tinha a escola, a gente passeava, podia tomar sorvete, podia ir no shopping e andar nos bichinhos”, se referindo aqueles bichinhos que pagamos uma fortuna para andarem 15 minutos em círculos e a gente correndo atrás, com medo do tempo, ou dos atropelamentos. Concordei com as observações dela, ainda citei mais outras tantas coisas proibidas nesse momento louco que estamos vivendo. Acolhi a tristeza dela e compartilhei as minhas. Rendeu um bom papo, inclusive, fico me pergunto até quando faremos isso? Será que seremos assim para sempre? Será que em algum momento ela não permitirá compartilhar dessa intimidade comigo? Quanto amigas seremos? Enfim, o tempo irá dizer, mas enquanto isso, faço tudo aquilo que está o meu alcance para construir um relacionamento com minha filha de confiança, permitindo que ela tenha liberdade de poder falar e se expressar sem amedrontamento ou pudor.

Continuando, já ao final da conversa, disse que no fundo achava que ela estava feliz com o pai, a mãe e o mano em casa todos os dias, o dia inteiro, sempre juntos, até porque até o momento dessa conversa, ela nunca havia mencionando a vontade de ir para escola, de sair de casa, de ver algum amiguinho. Tanto ela, como o Raul, parecia ter assimilado a situação de uma forma muito madura, que me causou surpresa inclusive.

Foi então que ela me mostrou um autoconhecimento e um amadurecimento no alto de seu um metro e cinco centímetros e seus cinco anos, que me deixou com um nó na garganta. Foi quando ela disse:

Mãe, eu sou feliz e tô feliz. Só que agora eu tô cansada, fiquei triste, lembrei de como era antes e me deu saudade, mas eu vou dormir, amanhã vai ser um dia incrível e eu vou ficar feliz de novo tá? Você brinca comigo amanhã? É claro! Respondi, com um beijo. Perguntei se ela queria que eu ficasse até ela pegar no sono, ela disse que não, que eu podia ler meu livro. Sorri, beijei ela mais uma vez e respondi: Amanhã vai ser um dia incrível!

Minha filha de apenas 5 anos me dando lição de vida!

Se me permitem um conselho: oportunizem momentos de conversas com seus filhos, deixem que falem sobre seus sentimentos, busquem compreender o real motivo de alguns comportamentos. Nós pais temos muito que ensinar, mas também temos muito ainda que aprender, e nossos pequenos sabem nos ensinar, podem acreditar!

Texto: Manuela de Godoy Gaspari

Créditos: Camila Scola