E você, como está?

Estamos todos bem, todos com saúde.
Sim, nos adaptando a esse novo momento de dúvidas, de incertezas. Estamos com medo de um inimigo invisível, difícil de explicar apesar de todos os canais da televisão falarem sobre ele quase em tempo integral.
Havíamos criado uma rotina em nossas vidas, corrida, como de tantas outras pessoas, mas ainda assim, confortável, com idas e vindas à escola, supermercado diariamente (apesar das intermináveis tentativas de organização para que não fossem necessárias essas visitas diárias, elas aconteciam todos os dias), havia visita aos avós nos finais de semana.
Há os avós, sempre de portas abertas, sempre contando as horas para os netos chegarem e a algazarra se fazer presente, além do sagu, torta de bolacha, um pouco de surdez e repetidas perguntas, porque já não gravam ou não esperam a resposta.
Algumas saídas para jantar em restaurantes, para desfilar uma roupa nova, para comemorar alguma data, para brindar um dia feliz, ou simplesmente para não sujar a cozinha que fora limpa com tanto zelo.
Para a alegria da gurizada, em dias de sol, a grande possibilidade de um sorvete gostoso, bicicleta, amigos, parque, diversão: vida!
Estamos todos bem, com saúde, agradecendo por não estar nos faltando nada. Mas continuamos com medo, porque não temos controle de absolutamente nada.
Se antes era complicado passar o merthiolate, agora é complicado explicar que não pode haver machucados, porque não se pode recorrer aos médicos, hospitais ou pronto socorro.
Se antes pedíamos aos nossos filhos para dar um beijo nos avós, agora os impedimos de vê-los.
Se antes era difícil auxiliar nos temas e trabalhos escolares, agora é preciso ensiná-los e não mais auxiliá-los.
Era tudo tão fácil e ainda assim, complicávamos.
Fazíamos planos! Alguns estapafúrdios, outros mais acessíveis, já outros tão simplórios.
Mas fazíamos planos! Agora o plano é esperar.
Estamos todos bem, na espera do melhor, na espera de tudo isso passar. Mas continuamos com medo, porque não sabemos até quando.
Que mundo é esse aonde quem perde um ente querido não pode ser abraçado em pleno funeral?
Aonde crianças cantam os “parabéns” através de telas de celulares?
Aonde pais não podem presenciar o nascimento dos filhos?
Aonde caminhoneiros precisam de voluntários que os alimente na beira das estradas para que possam continuar trabalhando?
Aonde médicos, enfermeiros e todos da área de saúde suplicam por materiais de proteção individual para assim, garantirem a continuidade de suas vidas.
Aonde esses mesmos médicos precisam decidir quem poderá continuar respirando e quem não?
Aonde não enxergamos mais os sorrisos escondidos por máscaras?
Enquanto os governantes não fazem nada além de manterem a fome pelo poder, enquanto a grande maioria quer apenas viver ou sobreviver com dignidade.
Aonde crianças precisam ficar isoladas para não serem transmissoras desse mal? Justo elas, que são as criaturas detentoras da maior pureza e inocência da humanidade!
Apesar de parecer surreal, é o mundo que estamos vivendo.
Mesmo assim, estamos todos bem, esperando passar, buscando a positividade em cada amanhecer. Juntando forças para continuar lutando por um mundo diferente quando tudo passar. E vai passar!
E quando tudo voltar ao normal, que a vida simples realmente seja vista como a mais importante!
Que a nossa espera não seja em vão, talvez devemos aprender mais sobre orações, mais do que isso: devemos aprender sobre sobre ações, sobre transformações.
Se hoje o plano é esperar. Amanhã o plano será ao menos tentar ser melhor do que se é hoje.
E só isso já será o bastante.

Texto: Manuela De Godoy Gaspari
Simplesmente Mãe?