“Sora” e mãe

                16 de março de 1998, início da minha carreira como professora.

                10 de março de 2014, início da minha carreira como mãe (professora e mãe).

                Durante dezesseis anos fui apenas professora. Lembrei-me agora daquela pergunta irritante: “mas você só dá aula?”. Com certeza durante dezesseis anos fui uma professora, e, há três anos, sou outra completamente diferente.  

                Sempre quis ser mãe. Desde a adolescência já tinha dúvidas sobre qual seria o nome do meu (minha) filho(a).  Já sabia a música que eu entraria na igreja no dia do meu casamento. Casamento? Esse não teve. Mas tenho um companheiro sim, o pai da minha filha (não poderia ser um pai melhor).

Comecei a lecionar cedo. Dezenove anos, e lá estava eu diante de quatro turmas de segundo ano do ensino médio, com praticamente a mesma idade dos meus alunos. Precisei começar cedo para pagar minha faculdade de Licenciatura Plena em Matemática. Em 1999 já trabalhava em dois turnos e, desde então, sempre necessitei trabalhar 40 horas semanais para dar conta do pagamento da facul (salário de professor dispensa comentários). Da mesma forma, quando decidi engravidar, sabia que não poderia deixar de trabalhar dois turnos. Os outros: “Mas Kati, porque você não trabalha apenas em um turno?” “Coitadinha, o dia inteiro na escolinha...” Eu: “Obrigada por aumentar a minha culpa.” “Não sabia que você pagaria minhas contas para eu conseguir ficar um turno em casa com minha filha.” Claro que essas respostas nunca saíram da minha boca. Minhas respostas não passaram de um sorriso amarelo.

Minha filha foi desejada e planejada. Acredito que esteve sempre ao meu lado esperando eu dar o tiro de largada, pois foi dar o sinal verde e lá estava ela: duas listras no teste de gravidez. Meu sonho realizado, minha alegria completa, amor de todas as minhas vidas, minha culpa diária por passarmos o dia separadas.

Foi o teste dar positivo para eu olhar para a escola com outro olhar. Olhar para as profes com seus alunos e pensar “como será a profe da minha filha”. Quantas vezes, ao ter que chamar a atenção de algum aluno, enxerguei minha filha no lugar do mesmo. Mudei completamente. Hoje olho meus alunos com um olhar de profe/mãe. Reparo em como está vestido, mando colocar o casaco antes de sair para o recreio, chamo a atenção para aquele salgadinho na hora do lanche. Refri durante a semana? Aaff... Antes eu comeria junto com eles. Cuidado com o sol! Fiquem na sala, está muito frio lá fora.

Gosto de olhar para minhas alunas e tento imaginar como será a minha filha quando chegar na “escola grande”. Será a mais estudiosa? Será aquela que não larga o celular e pinta o cabelo de azul? Jogará futebol? Handebol? Fará ballet ou será uma ginasta? Detestará esportes e será uma intelectual? Ou nem uma ou nem outra? Serei profe da minha filha? Boa ou má ideia?

“Mamãe, quando eu crescer, serei professora de matemática.” Quero ser bibliotecária!” “Quando vou para sua escola mamãe?””Deixa eu te ajudar?” (adoro suas ajudas enquanto faço ou corrijo provas) . Nessas horas percebo a aceitação da minha profissão. Como se dissesse: não se sinta culpada, mamãe.

Com certeza, as maiores dificuldades em conciliar a mãe com a professora, seja o tempo. O tempo em que ficamos afastadas, as noites mal dormidas, o horário cedo de nossas manhãs, nossas horas curtas no fim do dia, os domingos de planejamento enquanto brinca com o papai,  o deixar na escolinha (chorei durante um ano, todas as manhãs e, em algumas, ainda choro) .

Nessa semana recebi o primeiro bilhete na agenda da Maria Clara.  Quantas dúvidas! A Maria Clara mordeu uma colega. Foi culpa dela? Primeira dúvida. Será que ela não apanhou antes? Foi irritada ao ponto de morder? Nossa! Me tornei AQUELA MÃE! Sim, aquela que como professora, sempre julguei. “A mãe do fulano protege demais!”  Após explicar que o que ela fez foi errado, independentemente do motivo, precisei controlar-me para não rir, quando, entre lágrimas, ela me perguntou: Na sua escola, eles também mordem, mamãe? Eles mordem você?

Não tem como ser a mesma depois de se ter um filho. Nem a mesma mulher, muito menos a mesma professora. Vemos tudo com outros olhos, principalmente nossos alunos e suas famílias. Não me julguem, mas hoje me sinto mais segura quando sei que a professora da Maria Clara também é mãe.