Sobre fazer sentido, sentir!

Eu lembro daquela manhã gelada como se fosse ontem. Meu marido abrindo a janela e dizendo: corre, vem ver, está tudo branco, é neve! E eu corri apressada para contemplar o visual. Era realmente de tirar o fôlego, porém, imediatamente meu bebê de apenas um aninho invadiu meus pensamentos: terei que tirá-lo da cama nesse frio congelante para leva-lo à escola. A culpa e a sua presença infalível, querendo tirar o brilho daquela manhã encantadora.
Sim, precisei acordá-lo, precisei vesti-lo com o máximo de roupas possível, precisei registrar o momento, apesar dele pouco entender o que estava se passando, para ele, apenas um visual branco.
Como sempre, eu estava atrasada para chegar ao trabalho. Como sempre, foi aquela correria matinal, porém, naquela manhã tomei uma decisão inusitada, que quer saber, foi a melhor decisão que poderia ter tomado, que até hoje recordo e me admiro por ter acertado na escolha.
Naquela manhã excepcional, escolhi contemplar aquela paisagem incomum. Decidi passear pelo bairro na mais baixa velocidade. Entrei e sai por ruas que nunca havia passado. Durante aquele breve passeio não olhei para o relógio, apenas olhava meu garotinho pelo retrovisor, enquanto apontava para uma árvore e outra, mostrando para ele o quando estava grata por aquele momento. 
Ele esticava o pescoço pela janela do carro tentando avistar mais longe. Eu parava o carro e deixava ele visualizar o objeto de sua curiosidade. Era um momento só nosso. Não havia compromisso, não havia frio, não havia cobrança, não havia culpa. Havia nós em plena conexão de mãe e filho.
Passaram-se seis anos daquela nevasca. Nunca mais avistamos paisagem igual!
Cheguei atrasada no trabalho, sim! Culpa, não! Porque entendi que estava presente no momento que eu queria estar. Eu só tinha aquele instante, então eu parei nele, eu apreciei e usufrui o presente, e em nenhum momento me arrependi.
Saímos de casa muitas outras vezes com frio, atrasados, com a culpa de carona. Algumas vezes o amanhecer foi deslumbrante, outros a chuva tomava conta, alagando as ruas da cidade. Algumas saídas foram mais difíceis e outras mais fáceis, mas nenhuma foi tão marcante para mim, como aquela em que eu parei tudo, apenas para contemplar o momento vivido. 
E quando a vida está corrida, eu procuro lembrar do quanto foi revigorante parar! Sim, parar e viver aquilo que traz significado para a vida! Porque às vezes parar é o que nos motiva a continuar andando! E como eu andei depois daquela e de outras tantas paradas!
E você, quantas paradas você tem feito nesta caminhada?
Quantas paisagens foram contempladas?

Manuela de Godoy Gaspari
Foto: arquivo pessoal, manhã de neve!