SE VOCÊ PUDESSE DIMINUIR A DOR DE ALGUÉM, VOCÊ O FARIA?

Mais um dia das mães que passou, mais uma etapa do calendário comercial concluída. Sim, porque convenhamos, por mais que um abraço caloroso seja infinitamente mais valioso que qualquer outro presente, esta é sim, a segunda data mais esperada pelo comércio, perdendo única e somente, pelo Natal. Dia das Mães é todo dia? Sim, deveria ser pelo menos, assim como, Dia dos Pais, Dia dos Avós, Dia do Irmão, Dia do Marido e dia de todas as pessoas que amamos e valorizamos! Por algum motivo esquecemos desta valorização no corre-corre diário.

Além de muitos comerciais, anúncios e publicidade em volta desta linda data, percebi muitas discussões e opiniões sobre a comemoração, ou a não comemoração, do Dia das Mães em algumas escolas, que passaram a comemorar o Dia da Família, ou então, o Dia de Quem Cuida de Mim. Confesso que li comentários e opiniões de ambos os lados, hora pendia para um lado, hora defendia a outra versão, busquei lá dentro de mim, o máximo de empatia que poderia encontrar para colocar-me no lugar de outras pessoas. Qual minha conclusão? Então, eis o título desta matéria: se você pudesse diminuir a dor de alguém, você o faria?

Existe dor e sofrimento em maior ou menor escala? Não saberia responder, porém, quando envolve a falta do amor e da convivência materna, arrisco a dizer que esta certamente deve ser uma das maiores dores, principalmente, durante à infância. O meu lado mãe, adora apresentações dedicadas para mim, meu coração explode no momento que a música toca, minhas mãos ficam ávidas aguardando os cartões coloridos, de pés besuntados por tinta, desenhos rabiscados e mãos carimbadas no papel. Adoro as purpurinas e gliter!

Meu lado mãe também pensou na situação de acontecer uma fatalidade comigo, como meus pequenos sentiriam esta data, como eles estariam inseridos na escola no momento dos ensaios das apresentações, como seria para meu marido enfrentar este dia ao lado deles, será mesmo que as avós conseguiriam suprir a minha ausência, quando todas as demais crianças estariam olhando para suas mães queridas? Meus filhos cantariam animados, se esforçariam nos ensaios, ficariam ansiosos porque estariam ali, suas avós, ou tias, ao invés de sua mãe? A minha falta no almoço do domingo já não seria uma dor suficientemente grande para meus filhos encararem com idades tenras de 5 e 3 anos?

Meu lado mãe ficou pensando nas mães dos coleguinhas, será que elas não pensariam neles, na dor deles, em todas as dores e superações que teriam que enfrentaram durante toda a vida sem a mãe ao lado? Meu lado mãe pensou se não seria menos doloroso para as mães, que com sorte, poderiam passar por esta data especial ao lado de seus filhos, ao explicar o motivo de não mais haver um dia somente delas na escola, já que em casa ela continua reinando soberanamente ao lado de seus filhos? Para essas mães e filhos, mudaria apenas o dia da apresentação, todos os demais dias do ano seriam iguais, alguns mais divertidos, outros nem tanto, mas ainda assim, haveriam aniversários, haveriam beijos de boa noite, haveriam segredos de mães e filhos, abraços na porta da escola.

Meu lado mãe pensou nas crianças que não convivem com suas mães, seja pela morte, por abandono, por uma doença terminal ou por qualquer outro motivo, não teriam elas problemas suficientes para enfrentar na sua infância, adolescência e por boa parte da vida adulta?

Então, meu lado mãe pensou na frustração! Não estariam as escolas ou demais instituições agindo de tal forma para evitar a frustração destas crianças? Agindo assim, elas estariam ensinando a elas como é a vida real, onde alguns são mais felizes que outros em certos aspectos, que não se pode ter tudo na vida, que alguns ganham e outros perdem? Porém, no momento que percebo algumas mães frustradas, por não haverem apresentações, percebo que de certa forma, existem muitos adultos frustrados por esta mudança. Seria correto então, deixar crianças órfãs de amor materno frustradas, para não frustrar mães adultas de filhos presentes? Seria esta atitude coerente?

Meu lado mãe passou a questionar a mudanças das estruturas familiares, sendo o modelo tradicional de família exposto como diferente, quase que inaceitável, afinal, as exceções estão no holofote e as maiorias, sendo postas como irrelevantes. Será mesmo que está acontecendo? Dependendo do ângulo que nossos olhares estejam voltados, podemos enxergar por óticas diferentes, termos percepções diferentes, inclusive, diferentes entendimentos.

Por isso, penso que seja importante sempre ouvir todas as opiniões, entender o pensamento dos envolvidos, tentar ao máximo se identificar com a causa da outra pessoa.

Muitos motivos podem ser listados, sendo que cada instituição pode inclusive, ter tido razões diferentes umas das outras para tal mudança. Agradar a humanidade de forma hegemônica, sabemos que é impossível, agradar mulheres então, mais impossível ainda, e eu me incluo nessa lista de impossibilidades. Porém, diante deste tema, volto ao título deste texto mais uma vez:

Se você pudesse diminuir a dor de alguém, você o faria?

Sim, minha resposta é com toda certeza, sim eu faria! E você? Em contraponto, por não ser dona de nenhuma razão, inclusive, livre para mudar de ideia, me questiono, se estaria eu, deixando de perceber ou entender algo que talvez você percebeu?

Manuela de Godoy Gaspari