Só mãe?
 

Meu primeiro emprego foi aos 16 anos e lá se foram 20 anos. Eu que nunca imaginei deixar meu trabalho e minha liberdade financeira, abri mão de uma trajetória profissional para me dedicar aos meus filhos. 
Eu, sim, que sempre admirei as mulheres e suas mil e uma atividades. “Então você é só mãe?” Algumas pessoas me questionam. Respiro fundo antes de responder, afinal, respirar fundo, foi uma das coisas que aprendi rapidamente após ser mãe.
Só mãe? Simplesmente Mãe? 
Lamento informar, mas continuo acordando no mesmo horário de sempre. As minhas atividades, geralmente começam antes mesmo do meu café da manhã, sendo que quando consigo me alimentar, este é feito seguidamente ao som de choro, ou de pé, até mesmo caminhando de um lado para outro. 
É incrível como duas crianças conseguem sujar muitas, muitas e muitas roupas em um único dia. Ficando em casa, descobrimos que sempre haverá louça para lavar, sim, sempre! Se quiser tirar o dia para guardar brinquedos, pode acreditar, você passará o dia guardando e eles passaram o dia bagunçando. Não existe casa com brinquedo guardado. Esquece!
Todos os dias, sim, todos os dias, eles choram para trocar a roupa. Tirar o pijama é quase um crime que cometo. “Gritem mais baixo, os vizinhos vão chamar a Polícia.” Imploro respirando fundo, enquanto tento colocar as meias em um deles. Obviamente que quando termino o massacre da troca de roupas, um quer fazer xixi, outro se derrama água, ou então, assim, “do nada”, um deles resolver ficar pelado, rindo sem parar!
Hora de respirar fundo!
Dia sim, dia não, ufa, eles entram no carro sem gritos e sem choros. Porque no dia sim, que é o dia do choro, isso acontece porque eles competem qual será o primeiro a ser colocado na cadeirinha. Não adianta revezar, já tentei!
Dia sim, dia não, também temos choro dependendo da música que está tocando no rádio, um gosta, o outro não gosta. Respiro e desligo o rádio. Então, os dois choram, coisa mais linda de se ouvir. E eu continuo respirando, claro!
Com as crianças na escola, começa a minha folga! Vou para casar dormir, fazer umas palavras cruzadas, ficar no facebook! Ledo engano! Quem você acha que faz às compras, que merca médico, dentista, veterinário? Que fica horas no telefone com a TV por assinatura que não está funcionando ou que leva aquele sapato para colar no sapateiro?
Pois é a mãe que compra o presente de aniversário do coleguinha, que separa as roupas que não servem mais, que compra o uniforme, que providencia a fantasia de Halloween. Sem contar que a mãe também toma banho, também se alimenta, também se exercita. 
Então eu sou só mãe? Sim, quando decido buscá-los mais cedo na escola para passearmos em algum parque ou tomarmos sorvete. Quando eles deitam na minha cama pela manhã e eu opto em ficar abraçada com eles, sem precisar olhar para o relógio. 
Me sinto somente mãe, quando deixo molharem todo banheiro na hora do banho, quando permito sujarem suas roupas com tinta guache , terra ou caramelos e quando almoçamos juntos em plena terça-feira.
Minha carteira profissional pode esperar, já a infância dos meus filhos não! Algumas mães conseguem conciliar e eu as admiro demais, outras gostariam e não podem deixar suas atividades remuneradas, totalmente compreensível e normal. Outras mães não aguentariam essa vida de “somente mãe”, eu mesma pensei que não aguentaria e quem sou eu para julgar? Mãe é mãe, é singular. Somos o que melhor conseguimos ser, então, que cada uma possa viver do seu jeito, no seu tempo, com seu jeito.
Mas “Só Mãe? ”, não né? Respiro fundo! Sou mais muito mais do que qualquer pessoa possa imaginar!

Manuela de Godoy Gaspari