Quando me tornei mãe dos meus pais.

Há uma semana minha mãe precisou uma cirurgia de emergência. Com fortes dores abdominais, deu entrada no plantão e saiu após 5 dias. Ela se recupera bem, foi algo grave sim, mas como o atendimento e o diagnóstico foram feitos no tempo perfeito, não houve maiores problemas. E a partir da baixa hospitalar iniciou a minha mais nova experiência, aquela que me tornou mãe de minha mãe e de tabela, a mãe do meu pai.

Minha mãe possui 4 netos: Pedro, Lucas, Raul e Cecília, uma netinha no céu, a bebezinha Virgínia. Ela é minha mãe, mãe da Malu, que soma 7 anos a mais que minha idade e da Matthe, minha mana mais velha, que partiu há 20 anos, quando tinha apenas 29 anos. Talvez se esta fatalidade não tivesse ocorrido, poderia somar ainda mais netos nesta conta.

Ao longo de seus setenta e um anos (que irá festejar em novembro próximo), a velhinha que chamamos de Nena, não possui características como de outras vovós. Ela é feita de pilhas alcalinas, seu fôlego, espírito de aventura e energia, não possuem fim. Ela joga vôlei, faz pilates, ginástica, anda de bicicleta, poda árvores, corta grama, troca lâmpada, sabe nadar, mergulhar, faz a feira e como toda vovózinha, faz tricô, mas este último lhe deixa com dor nas costas, segundo ela. Pasmem! Só não dirige porque passou por um trauma no passado, ao me ver atropelada quando criança, e depois deste episódio, decidiu não ocupar mais a posição de piloto, mas na sua responsabilidade de co-piloto, ela faz sempre uma oração (como toda boa vovó) e se mete em tudo, penso até que ela dirige escondida, de tanto que sabe, só não faz.

Pois bem, após a alta hospitalar, eis que fico de cuidadora, dividindo meus afazeres domésticos entre a minha casa e a casa de meus pais. Nestes dias obtive alguns avanços em negociações que estavam em andamento já algum tempo, como por exemplo, convencê-los a colocar um portão eletrônico, visto que ela possui setenta e um anos e meu pai, beirando aos setenta e sete, com uma perna a menos, já que precisou amputá-la no passado em função da diabetes. Meu pai possui um carro automático, o que lhe permite manter essa mobilidade, porém, ele não abre e nem fecha o portão, adivinha de quem é essa tarefa? Da Nena, faça chuva ou faça sol, seja para meu pai, para mim, para minha irmã ou para qualquer pessoa que aponte próximo ao portão, ela encarna o Usain Bolt e lança-se ao portão!

Pois bem, essa tarefa ficou no passado, pois conseguimos instalar o portão eletrônico na casa dos vovôs!

Mas foi quando ela cogitou a idéia de comprar uma nova bicicleta, que me assustei de verdade! Disse que ela deveria comprar a bici na praia, assim não precisaria transportá-la até lá, visto que em nossa casa de praia ela já possui uma bicicleta e por lá ela arrisca algumas pedaladas. Não, diz ela, decidida!  Eu quero uma bicicleta para andar aqui na Cidade! Me mostrando o encarte da loja e já escolhendo o modelo e cor.  Eis que engoli em seco, imaginei minha mãe andando de bicicletas, cabelos brancos ao vento, capacete, joelheiras e cotoveleiras devidamente colocadas, óculos de grau no rosto e rodinhas junto a roda traseira. Só faltaria eu atrás cuidando para ela não cair, exatamente como faço com meu filho de recém feitos 5 anos!

E se mesmo assim ela comprar a bicicleta? Me questionei após ter saído da casa dela. Afinal, ela é dona de suas faculdades mentais, ela é lúcida, faz uso de sua aposentadoria, tem liberdade para ir e vir, não precisa me dar nenhuma satisfação. Então pensei em meus filhos, de quanto mais fácil é impor limites aos filhos do que em nossos pais. Nunca havia pensado sobre esse prisma. E aqueles medos que alimento sem querer em meu íntimo, de que meus pequenos podem se machucar, podem ficar doentes, enfim, passo a somar mais essas preocupações, porém, com meus pais.

Dizer não para uma bicicleta aos meus filhos é infinitamente mais fácil, penso eu, pois se eu não os presentear, saberei que não as terão. Se eles precisarem de medicação, eu controlo os horários e os faço tomar os remédios, eles querendo ou não. Se choram, pego-lhes no colo, se fazem birra, os coloco na cadeira do pensar. Mas e quando as crianças são meus pais?

No dia seguinte, meu pai, como qualquer criança que entrega a outra, me conta que a Dona Nena não está tomando uma medicação. Terei eu que coloca-la no cantinho do pensar? Terei que sentar na sua frente e explicar todas as razões e os motivos para o médico ter receitado a dita medicação? Pensei que ela soubesse de tudo isso, afinal, ela é minha mãe, ela sempre soube de tudo!

Sabemos que a ordem natural é cuidarmos de nossos pais e que eles tornam-se crianças novamente. Mas será que realmente nos preparamos para este momento? Quando este dia chegar (para mim eu acredito que já chegou), estaremos presentes para dar todo o suporte necessário? Aprendi a ser mãe com meus filhos, inclusive, cada dia aprendo um pouquinho com eles, assim o farei com meus pais, acredito que aprenderei com eles a me tornar mãe de minha mãe e de meu pai, a cada novo amanhecer, em cada novo acontecimento, a cada arte que eles irão aprontar.

Quero crer que esta será uma aventura transformadora, para mim e para eles. Iremos aprender juntos, iremos descobrir novas formas de diversões. Desejo que ainda tenhamos muito tempo para ajustarmos nossos pensamentos e nossas diferenças. Aprenderemos como inverter nossos papéis juntos e com muito amor e paciência. E é a paciência a responsável por fazer esta tarefa ser mais ou menos fácil!

Minha semana de cuidadora findou neste momento, passei o bastão para minha irmã, que terá o final de semana pela frente, enquanto eu, levarei meus filhos para andarem de bicicleta. Espero somente não encontrar pelo caminho, minha querida e velhinha mãe, com sua mais nova aquisição: sua bicicleta de rodinhas!

Manuela de Godoy Gaspari