Procura-se uma girafa azul que atende pelo nome de Gigi!

Era uma vez um bebê com uma dificuldade imensa em pegar no sono. Bem, a história não é bem assim, na verdade ele pegava no sono facilmente enquanto estava no colo, porém, após colocá-lo no berço os gritos tomavam conta do recinto. Já ouviram essa história?  Essa aconteceu na minha casa, com meu primogênito, Raul!

Era uma vez uma mãe desesperada para fazê-lo dormir, sem que o mesmo disparasse gritos ensurdecedores assim que percebesse a ausência da mãe, que não acordasse os vizinhos no estalar de qualquer barulho insignificante. Imagino que também já conheçam essa história! Então, aquele que foi o pediatra da mãe, resolveu assumir a bronca e passou a atender seu filhote. Me emociono só de lembrar, sim, foi comigo, meu pediatra atendeu meu pequeno chorão noturno, ensinando a mim e ao meu marido, como fazê-lo dormir sem maiores percalços. Consistia em criar uma rotina de sono, fazendo inclusive um cenário do ambiente que ele iria dormir, para que entendesse tudo que estava acontecendo a sua volta.

Aos dois meses, ele havia ganho de uma amiga querida, uma girafa azul, a protagonista do cenário feito por mim, para acalmá-lo na hora do soninho. Toda vez que o menino bocejava, lá estava a Gigi (que mais tarde foi batizada pelo seu amigo/dono/confidente Raul) para lhe fazer companhia, velar seu sono, acalmar e acarinhar. Funcionou! Sim, funcionou, ele enxergava a Gigi e relaxava, estava seguro na companhia daquela pelúcia fofa, de cor vibrante, pescoço alto em alerta para qualquer estalo.

Os anos passaram, o menino foi crescendo, já o pescoço da Gigi foi caindo, caindo, caindo, ficando molenga. Ele ficara deformado, mas de tanto carinho e amor recebido. A Gigi passou não somente as noites ao seu lado, mas as manhãs e as tardes. A Gigi conheceu o mar, andou de avião, chegou aos pés do Cristo Redentor, fez novos amigos. Ela acompanhava as consultas médicas, plantões, dentista. Estava conosco na casa dos avós, em nossas férias, se duvidar, até em nossos trabalhos!

Um dia o menino ganhou uma irmãzinha de presente, com a chegada da Cecília, muitas mudanças, novos sentimentos, novas sensações. Apenas uma coisa não havia mudado: a fiel escudeira Gigi! Conforme o tempo foi passando, ela virou objeto de desejo da pequena irmã, fora roubada algumas vezes, fora motivo de disputa, fora motivo de choro, de brigas e malcriações.

Novamente o tempo foi passando, a Gigi ajudou na recuperação de enfermidades, foi companheira de muitos desenhos, participou de muitas brincadeiras, experimentou algumas comidinhas, ficou grudenta de bala, suco, grama e chulé. Rodopiou muitas vezes na máquina de lavar, ficou pendurada, estendida ao sol. Ganhou abraços, beijos, passou calor embaixo do cobertor, sentiu frio ao cair na geada.

Um dia Gigi partiu. A última vez que nos vimos, foi quando ela cuidou incansavelmente de seu fiel amigo na recuperação de uma cirurgia. Não sabemos qual o motivo que levou nossa amiga a nos deixar, teria ficado assustada ao vê-lo se recuperar? Não sabemos como ela saiu, quando, ou qual lugar resolveu conhecer, ou talvez, retornar. Procuramos em todas as gavetas que pudesse estar, reviramos nossa casa, a casa dos avós, nossos carros, reviramos nossas memórias, refizemos os caminhos percorridos, buscamos revirar nossas lembranças, nada. Decidimos arredar os móveis dos lugares, mas foi em vão. Nenhum lugar abrigou nossa amiga azul, já velhinha, com seu pescoço caído. O bico se foi, a mamadeira, as fraldas, o corte de cabelo, até um dente de leite, mas nada disso causou tanta saudade como a amiga Gigi. Aquela girafa que em um primeiro momento foi usada como parte de um cenário, deixou para nós apenas retratos nostálgicos. Caso alguém um dia a encontrar, por favor, transmita este recado, que sempre seremos gratos por todos seus cuidados, que estamos ansiosos para a reencontrar e escutar todas as novidades. Enquanto isso não acontecer, a vida segue, em pequenos detalhes ensinando que é preciso cuidar de quem se ama, é preciso zelo, dedicação, responsabilidade e respeito, a vida nos ensina que amigos guardamos dentro do peito!

 

Manuela de Godoy Gaspari