Pode ir sem medo meu filho, você está seguro!

The Walking Dead, série americana dramática e pós-apocalíptica, baseada em uma série em quadrinhos. A série conta a história de um pequeno grupo de sobreviventes de um apocalipse de zumbis, ou "walkers", como os personagens os denominam. Os sobreviventes são vistos em busca de refúgio e de um local seguro, longe das hordas de mortos-vivos, que devoram pessoas e que cuja mordida é infecciosa para os seres humanos. E eu com isso? Você deve estar se perguntando! Pois bem, apenas introduzi o assunto para explicar como essa séria sem pé e sem cabeça, fez com eu pensasse em meus filhos, nos seus filhos, nas crianças e adolescentes de hoje, os adultos de amanhã.

Em um momento da série, (sem spoiler) um filho escreve para o seu pai falando de suas lembranças da infância, momentos banais, aqueles rotineiros, geralmente sem reflexão alguma em torno deles. Ele recorda da escola, de comer pizzas nas sextas-feiras à noite, dos churrascos de verão. Então, esse filho recorda de como ele se sentia quando saia de mãos dadas com seu pai, quando era apenas uma criança. O quanto ele se sentia feliz e seguro ao andar de mãos dadas, tagarelando sobre coisas sem importância. Então, ele conclui algo sobre a vida adulta que eu nunca havia parado para analisar: “crescer é tornar a si mesmo e às pessoas que você ama seguras”.

Ao ler essa frase na legenda do televisor foi o suficiente para ficar viajando nos meus pensamentos, sem conseguir me concentrar no restante do capítulo. Tenho visto desabafos em redes sociais de pais e mães cujos filhos estão passando pela adolescência. O medo e a insegurança de deixá-los partirem sozinhos pelas portas de suas casas. É chegado o momento de deixá-los partir para o mundo que então é conhecido por eles, somente pelo que falamos dele, mas que agora serão vividos sem a nossa presença. O momento do teu filho, aquele que veio de ti, que balançou todas tuas estruturas físicas e emocionais, aprender com a vida, aprender por si mesmo, ter suas próprias experiências, suas desilusões, suas alegrias e suas decepções.

Haverá o dia que será necessário estar segura de todos os valores que lhes foram passados, de todos os exemplos que eles presenciaram, de todos os discursos serem colocados em prática. É o momento onde o passeio de mãos dadas na infância, aquele, sem maiores pretensões, mas que fizeram seu filho se sentir seguro, amparado e confiante, fará diferença.

Fico pensando quais recordações meus filhos terão de suas infâncias, quais momentos ficarão marcados em suas lembranças, quais serão os mais relevantes, quais os mais impactantes. Será que eu saberei deles, no momento que estivermos vivendo? Talvez eu jamais saiba, afinal, conforme vamos crescendo, infelizmente, vamos perdendo a nossa capacidade de comunicação com nossos pais, vamos perdendo a essência da criancice, aquela capaz de contar os detalhes, de sentir vontade e felicidade de falar sem parar, sem vergonha de expor sentimentos, sem culpa por estar fazendo certo ou errado, simplesmente compartilhar momentos diários. Talvez eles jamais me contem, apenas sintam e guardem para si, talvez compartilhem com outras pessoas, talvez eu nem conheça as pessoas que eles terão intimidade para contar sobre nossos momentos.

Talvez eles joguem suas recordações em blog na internet, assim como sua mãe!

Hoje eu entendo a importância de estar presente, entendo a diferença de vê-los brincar e brincar junto. Inventar as brincadeiras, sentar no tapete da sala de estar é diferente de assisti-los!  Conforme meus filhos crescem, instintivamente volto para minha infância, recordo de muitas situações com meus pais, porém, recordo também dos meus momentos que eles não estavam lá. Pensei na segurança que me transmitiam, mas também lembrei da inquietação que tomava conta de mim, quando me faltaram em momentos que talvez eles pensassem que não fosse necessário, mas que para mim, por algum motivo marcou.

É preciso criar nossos filhos com a segurança de estarmos com nossos ouvidos sempre prontos para escutá-los, com as portas de casa sempre abertas, mais que isso, com os braços sempre estendidos para abraçá-los, independentemente da idade, beijos de mãe sempre poderão curar. Precisamos segurar nossos medos para que se sintam seguros, precisamos viver de tal forma, que mesmo envelhecendo, mesmo distantes, mesmo que zumbis invadam nosso mundo, que nossos filhos possam sentir a segurança e a felicidade que o andar de mãos dadas em volta do quarteirão, ou entre gondolas do supermercado, transmitiram a eles quando tinham apenas 4 ou 5 anos de idade.

Você pode sentir essa sensação? Você consegue entender a importância deste ato simples que é segurar sua pequena mão? Você consegue entender aquilo que está por trás da cena de seu filho estendo sua mão para que você possa agarrá-la?

Uma complexa relação humana que se estabelece através de um simples ato.

Esteja segura e agarre este momento!

Manuela de Godoy Gaspari