Perdas e ganhos

Minha mãe perdeu uma filha de 29 anos.

Minha irmã perdeu uma filha de 3 dias.

Uma amiga da minha mãe perdeu um filho de 21 anos.

Minha amiga perdeu um filho de 4 anos.

O filho de uma vizinha tirou-lhe a própria vida.

Outras amigas perderam seus filhos ainda em seus ventres.

Todos os dias mães perdem seus filhos, seja para as drogas, para a violência, pela marginalidade. Outras perdem para o trânsito, acidentes domésticos, fatalidades. Ainda assim, existem mães que perdem seus filhos estando eles ainda vivos.

Nenhuma mãe decidiu perder, nenhuma mãe deseja perder e infelizmente não temos controle do que a vida nos reserva, porém, podemos decidir o que queremos ganhar, podemos sim decidir viver tudo o que os filhos podem nos dar e nos proporcionar. Afinal quem realmente nos dá a vida? Pois tenho a sensação que meus filhos me deram a vida e não ao contrário.

Eu não quero perder. Não posso pensar em perder, mas posso pensar em não perder momentos na companhia daqueles que mais amo, por isso eu decidi ganhar!

Sim, decidi ganhar mais tempo com meus filhos!

Decidi tê-los, agora optei vive-los, optei por suas infâncias, por suas façanhas, por suas manhas e artimanhas.

Decidi sim, que quero ganhar mais beijos babados, beijos roubados, beijos estalados.

Decidi que quero suas mãos melecadas envolta do meu pescoço.

Que quero manhãs e tarde ensolaradas em praças e parques.

Quero banho de chuva depois de um dia abafado.

Quero ganhar sorrisos e desenhos rabiscados.

Quero ganhar comidinhas feitas de areia e terra, decoradas com folhinhas picadas, servidas em pratinhos cor de rosa.

Quero ganhar tarde de filmes animados, pipocas e cobertores no sofá.

Quero segredos ao pé do ouvido, quero acampar no quintal de casa, quero dar comida aos passarinhos, quero preparar alguns lanchinhos.

Quero histórias, quero cócegas, quero cambalhotas.

Decidi por bolhas de sabão e preguiça pela manhã.

Quero enxugar suas lágrimas e curar-lhes os machucados.

Decidi enxugar as minhas lágrimas de ausência e de saudades.

Decidi priorizar, decidi protagonizar, decidi não ser coadjuvante, decidi pela intensidade de estar verdadeiramente presente, lado a lado, passo a passo.

Decidi que quero chegar lá na frente, com saudades do passado e assim ter me orgulhado por esse ter sido meu mais maravilhoso e talentoso trabalho!

Não me sinto mais mãe por ter tomado essa decisão. Não há mais ou menos amor de minha parte em comparação ao amor de outras mães que optaram por outro caminho. Na verdade, não deveria existir comparações e muito menos o sentimento de culpa por nossas decisões -  sejam elas acertadas ou equivocadas. Como mães, somos todas iguais, somos humanas buscando o melhor para nossos filhos e também para nós mesmas, porque o objetivo de tudo afinal de contas é a felicidade. É encontrar sentido no que fazemos e às vezes, quando isso não acontecer, o melhor é parar e ajustar os ponteiros, procurar um novo caminho, redirecionar os olhares e fazer aquilo que de fato faz sentindo. Já parou para pensar no que está fazendo hoje?

Você está feliz?

Seu filho está feliz?

Teu objetivo de vida é este?

Então está tudo certo. Você decidiu certo. Mantenha-se e siga em frente celebre todos os bons momentos, porque a vida está acontecendo agora, neste exato momento.

Ficou na dúvida?

Aí querida mãe, pense bem, talvez algo incrível te espera ao virar a esquina, ou na próxima página ou em outra estação.

Boa sorte !

 

Manuela de Godoy Gaspari

Fotos de arquivo pessoal - Em restaurante e  Cantina Tonet