Para pais e mães de filhos pequenos:

 

Certo dia estava pensando que estamos com os dias contados. Sim, desde que nossos filhos estavam em nossos ventres, caras Mamães, já sabíamos que eles cresceriam: primeiro são bebês, depois crianças, adolescentes, adultos. Eis que me reparo que tenho apenas mais algum tempo de gritaria ao escutarem as buzinas irritantes do tio do picolé quando passa em frente à minha casa. A mesma gritaria que ocorre ao enxergarem os túneis da rodovia que nos liga ao litoral, durará quem sabe mais uns dois, ou três anos no máximo. Depois, há, depois creio que estarão ligados em seus fones de ouvido, cada qual com seu gosto musical, não haverá aquela sinfonia de vozes cantando Bita e os Animais.
Estão contados os passeios de mãos dadas, a espontaneidade das descobertas, os olhares de admiração.
Logo mais o picolé de uva não resolverá nenhuma tristeza, nem mesmo uma voltinha na pracinha fará a alegria de um sábado à tarde. O balcão da padaria não despertará a mesma euforia. Os banhos de chuva serão evitados, ao invés de esperados e desejados! 
Os dias estão contados para tagarelice e a vontade de entender como tudo funciona. Talvez não haja mais interesse para entender todos os porquês, ou simplesmente encontrarão suas respostas ao acessarem sozinhos os domínios da internet.
Catar conchinhas na beira da praia não será mais tão divertido.
Logo mais a magia do Natal poderá se perder ao entenderem a verdadeira identidade do Papai Noel. O chocolate talvez não seja mais tão doce quando o coelho for apenas um animalzinho como outro qualquer e o passeio no Jardim Zoológico não terá nenhuma importância comparado com o campeonato de vídeo game com os amigos.
Precisamos aproveitar os dias de mãos dadas, porque até estes estão com os dias contados!
Estão contados os dias em que andar de ônibus é uma aventura e de acreditar que de avião se pode chegar à lua!
Sendo pais descobrimos com os filhos a possibilidade de se alegrar com a simplicidade dos momentos, talvez seja por isso que a infância é por pouco tempo, deixando em nós um gostinho de quero mais, deixando uma saudade antes mesmo de ir embora. 
Talvez por termos os dias contados, vivemos intensamente os pequenos gestos, nos alegramos facilmente, nos emocionamos sucessivamente e amamos incansavelmente.
Quando se tem filhos é possível entender que a felicidade pode morar sim, em um simples picolé de uva!

Manuela de Godoy Gaspari
Créditos: Camila Scola | Fotografias