Pó de pirimpimpim

Você nasceu em pleno inverno, no auge do inverno eu diria. Cesárea agendada para às 07h da manhã, sendo que deveria estar no hospital às 06h. Era frio, era úmido, havia aquele vento que chegava a machucar a ponta do nariz.

Você veio ao mundo assim, em dia cinza, um dia de ficar escondido aonde quer que fosse e você ao contrário de todos, veio ao mundo. Chegou ao mundo mostrando que fôlego e cordas vocais havia de sobra. E continuou até hoje nos mostrando o quanto as tuas cordas vocais e o quanto os teus pulmões são fortes, sem contar, que atrás destes olhos brilhantes mora uma cachoeira que recebe água de muitos riachos, porque as lágrimas brotam em seus olhos sem nenhum titubear, sem precisar de muito motivo ou de muita causa.

Assim é você meu filhinho, você com sua facilidade ímpar em chorar e se fazer notar pelo show de lágrimas.

Ao passar noites te ninando, cantarolando, procurando algo de errado que lhe fizesse parar de  chorar, fui debutando na maternidade. Eu te mediquei, eu te beijei, eu te acariciei, eu te xinguei, eu implorei e nada lhe fazia cessar.

Comecei a criar gatilhos mentais que me fizessem acalmar, contava até 20 (até 10 era bobagem), passava por todo alfabeto, listava as cores do arco íris, listava nomes de animais, eu chorei baixinho, eu chorei de soluçar, eu te deixei sozinho para respirar e me encontrar.

Até que em algum momento, por algum motivo, você dormia.

E então a mágica acontecia.

Não sei se é pó de pirimpimpim, ou se os filhos exalam algum tipo de cheiro viciante, só sei que algo acontece enquanto os filhotes dormem. É neste momento  encantador que a magia aparece e o amor cresce.

Neste momento que observo os teus dedinhos perfeitamente esculpidos, com minúsculas unhas que parecem pétalas de flores de tão sensíveis. Que observo cada vinco dos teus lábios perfeitamente desenhados, que noto a fina pelugem em volta de suas perfeitas orelhas, que passo a mão por tua sobrancelha quase inexistente. Encontro algum escamar de peles, passo a mão pelos teus cabelos macios, seguro teus dois pezinhos em uma única mão.

Você faz alguns barulhinhos com a boca, parece  querer sorrir, boceja, aperta meu dedo.

Então é isso, não existe mais nada no mundo a não ser eu e você. Todo o resto perde a importância, nada mais tem valor se não é para te ter aqui comigo. Será isso que as pessoas falam de amor incondicional?

Descobri que se ama mais quando as crianças dormem. No momento do sono amamos mais os nossos filhos. No momento do soninhos as culpas e os remorsos nos chibatam as costas, podendo deixar marcas. Assim como acontece comigo, percebi que o mesmo sentimento é compartilhado com as demais mães com que me sinto segura para abrir meu coração, aquelas mães que sei que não irão me recriminar ou me julgar pelos meus mais ordinários pensamentos.

Não sejamos hipócritas, o choro cansa, desgasta, esgota. A maternidade não é fraternal em tempo integral, ela pode ser incrivelmente cruel em alguns momentos. As mães de um modo geral tendem a se sentirem sós, perdidas, dando voltas em torno de si mesmas sem encontrar a solução para suas feridas.

Descubro que o sono se faz necessário para selarmos a paz, para reestabelecermos a sanidade mental, para nos olharmos no espelho e tentarmos reconhecer aquela mulher que ainda somos, tirando o cheiro do leite que vazou, tomando um banho desejado, nem que seja aquele sono necessário para recompor toda a energia despendida entre cantos, danças e promessas devidas aos céus. É o tempo de passar o mertiolate e de curar as feridas.

É por isso que as mães arregalam os olhos quando aquela visita de final de semana insiste em pegar teu filhinho no colo enquanto a magia do pirimpimpim acontece. Não é por mal, mas por proteção, não por proteção do bebê ou por exagero de cuidados a criança, mas por um cuidado a ela própria, porque quando tiramos a casquinha da ferida antes do tempo, dói, machuca.

As mães precisam do soninho do bebe para se recompor. Para a lucidez e para o renascer de mais um ciclo de paciência e de esperança que a próxima crise de choro seja curta, seja passageira e que o sono reconfortante retorne, para novamente estabelecer esse vínculo eterno de amor que transcende.

Dorme agora meu pequeno, já menino, teus traços de bebe já deixastes para trás, deixa então que a magia venha até nós mais uma vez, afinal poderá ter a idade que for que em meu colo sempre haverá espaço para te aninhar, meus ouvidos sempre ouvirão o teu chamar e minhas mãos secarão todo o pranto  que quiseres derramar. Entre meus braços quase não cabe mais, acredito que não seja o local mais confortável para teus sonhos, mas neste espaço, independente do meu e do teu tamanho sempre irá encontrar consolo, carinho e amor, pois me fizeste tua mãe e assim sendo, sempre irei lhe zelar.

 

Manuela de Godoy Gaspari