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Os traumas que herdamos, os traumas que deixamos.

Uma coisa é certa, de alguma forma estamos falhando, já falhamos ou ainda iremos falhar. Lá na frente nossos filhos terão traumas de infância, irão nos responsabilizar por certos comportamentos ou atitudes. Quem sabe seremos inclusive a pauta da terapia futura dos nossos pequenos, quando forem adultos. Posso arriscar um palpite que seremos julgadas por dar mais atenção para um filho do que para outro, de ter optado pela escola errada, de ter sido muito rígida ou muito tolerante. Eles irão nos culpar de algo sim, mas ainda não sei do quê.

Eu mesma tenho muitas queixas da minha mãe, tenho lembranças da minha infância que me incomodam até hoje, mesmo entendendo que nunca foi a intenção dela errar, me fazer sofrer, ou marcar minha vida negativamente. Hoje como mãe, entendo mais do que nunca que mães erram na ânsia de acertar, de fazer o melhor, mas sem querer, falham sim.

Eu deveria ter uns 3 ou 4 anos de idade no máximo, quando meu pai me levou em uma loja para comprarmos um sapato. Muito querido, ele me deixou escolher o sapato que eu quisesse! Obviamente que agora entendo os homens e sua praticidade do tipo “não vou me incomodar, deixa a criança ser feliz”, eu aproveitei a ocasião e escolhi um sapato branco, tipo boneca, com detalhes em tecido e pedrinhas em cima. Um sapato estilo daminha de casamento, perfeito!

Nossa casa ainda não estava completamente pronta, ainda haviam pedreiros trabalhando nas calçadas e muros, havia areia, brita, pó e barro por todo o nosso pátio, para minha mãe, era o caos, com mais duas filhas além de mim, era o desespero da sujeira. Mais desesperador foi quando mostrei meu sapato branco de princesa. Não tínhamos uma condição financeira que permitisse a destruição daquele calçado na primeira usada. Foi quando ela me levou para trocar o meu lindo sapatinho por um mocassim preto e uma sandália da ortopé (nunca vou esquecer da marca depois daquele dia), que parecia de menino. Minha mãe tentou me convencer que era a melhor sandália do mundo, afinal, era ortopé! ! Que o mocassim era o sapato mais confortável do universo, mas mesmo assim, ela só conseguiu foi marcar este episódio para todo sempre, com minha frustração. Eu sofri para deixar aquela caixa, com meu tesouro branco dentro. Obviamente não foi por mal, foi por necessidade, foi por todas as condições que não favoreciam o sapatinho dos meus sonhos naquele momento.

Poderia citar muitos momentos felizes que marcaram minha infância, poderia descrever muitos ensinamentos positivos, porém, nada apaga as lembranças não tão felizes, por mais que exista entendimento, por mais que não exista rancor ou mágoa. Viramos a página, mas não a arrancamos fora, ela fica ali, no nosso livro de recordações. Mesmo adulta, quando nos remetemos à infância, parece que nos tornamos novamente crianças.

Que lembranças deixarei para meus filhos?

Quais recordações eles guardarão de mim?

Que momentos ficarão registrados para sempre?

Que culpas cairão sobre mim?

Que erros terei que carregar?

Até esse dia chegar, teremos caminhado muito de mãos dadas, em passos lentos pelas calçadas, teremos deixado algumas joaninhas subirem em nossas mãos, teremos chutado algumas pedrinhas. Teremos observado as pombinhas catando migalhas, as formigas andando em filas coordenadas, levando folhinhas para suas casas. Há, nós teremos dado muita gargalhada ao escorregar na casca de banana, que na rua foi deixada, por alguma pessoa mal-educada.

 

Manuela de Godoy Gaspari

Créditos: Camila Scola