O resultado é positivo.

Você lembra de quando decidiu engravidar, todos os exames preventivos, aquele check-up gigantesco que você aguardou ansiosamente para saber se estava apta ou não, para ter seu bebê? Como se fosse uma adolescente procurando seu nome na lista de aprovados do vestibular?
Tendo a aprovação, recorda das vitaminas diárias para garantir a saúde daquela pessoinha, que ainda nem foi gerada?
Você lembra do dia que visualizou o resultado do seu teste de gravidez? 
Lembra qual foi a sua reação?
As primeiras pessoas que receberam a notícia?
Lembra da sua primeira ecografia? Qual foi a sensação? 
Você lembra como estava seu bebê ao longo das 18 semanas de gestação?
Irei então, recordá-la: neste período, o bebê pode chegar até 15 centímetros de comprimento, do alto da cabeça, até o bumbum, já é capaz de ouvir e de sentir os batimentos cardíacos da mãe e, os barulhos do sistema digestivo. No caso das meninas, útero e trompas já estão formados, nos meninos, o genital já está visível.
Foi neste período que a Caroline, ou Carol, como a chamo desde que a conheci, em uma sexta-feira à noite, durante um banho aconchegante, sentiu algo estranho no seio. Não queria ficar preocupada, tentou a todo custo pensar que era algo natural, assim como toda alteração que ocorre no corpo de uma gestante. Mesmo assim, em contato com a sua médica, que a tranquilizou, esperou até a segunda-feira para realizar uma ecografia de mama, afim de descartar quaisquer problemas.
Carol, grávida, ansiosa pela chegada de sua primeira filha, após pesquisar o resultado do exame no Dr. Google, se vê sentada do outro lado da mesa de sua obstetra, que naquele momento começa a agilizar consultas com outros especialistas, bem como, demais exames.
A agilidade e a prontidão da sua médica em ajudar, foi o que a assustou. 
Você consegue se colocar no lugar? É Câncer, é grave, você é gestante!
Carol, que perdeu o pai por um câncer de esôfago quando tinha apenas 14 anos, só queria proteger sua menina, que estava crescendo, ali, dentro dela, em seu corpo, que era sua proteção.
O primeiro momento mais doloroso, não foi quando recebeu o diagnóstico avassalador, mas sim, quando precisou pressionar a sua barriga contra um ferro frio de uma máquina de mamografia. Não conseguia organizar seus pensamentos e segurar o colete de chumbo ao mesmo tempo. Desconfortável pela posição que lá se encontrava, desconfortável pela falta de acolhimento das pessoas que lá estavam para lhe auxiliar, sentiu dor, física e emocional. Sentiu que estava machucando a pequena Laura, ela, que deveria estar lhe protegendo.
Você lembra quando estava de 23 semanas de gestação? Neste período o bebê pode chegar a 29 centímetros, da cabeça ao calcanhar. E foi neste período gestacional que a Carol encarou seu segundo maior momento de dor: uma mastectomia de mama, anestesia geral.
Entubada, acordou sentindo dor. Essa dor continuou por muito e muito tempo, afinal, a dosagem que ela poderia receber de medicação, ela já havia feito uso para realizar a cirurgia. Era preciso aguentar firme para não prejudicar aquele anjo, que lutava bravamente junto de sua mãe. 
Você lembra de sua gestação? Preparou chá de bebê, participou de curso de gestante, pesquisava enxovais na internet? Comprou alguns livros sobre como criar bebês? Fez sessões de drenagem linfática?
A Caroline fez quimioterapia. Tratamento psicológico 4x por semana. Ela comprava antidepressivos, que seus médicos receitavam, mas não tomava, para não prejudicar sua pequena Laura. “Se era para mentir que estava tomando medicação, era preciso mentir direito”, segundo Carol.
A Carol precisou cortar todo o seu cabelo, e, assim o fez sozinha, sem contar para ninguém. 
E você, como você se preparou para o parto? Manicure, depilação, comidas congeladas no freezer?
A Carol e sua obstetra faziam um plano de parto, para que ele acontecesse no intervalo de suas quimioterapias, controlando sua imunidade, sua bebê não podia nascer no momento que quisesse, precisavam controlar a sua chegada.
E quem tem controle sobre isso? Laura mostrou que viria ao mundo quando quisesse sim, e, com 33 semanas a bolsa estourou, sem nenhum tipo de mala de maternidade pronta, correram com o coração nas mãos para conhecer a menina de olhos azuis reluzentes, como de um anjo, que aguardava o momento de conhecer sua tão destemida mãe.
E por falar em mãe, quem a ajudava após o parto de Laura, obviamente foi a mãe de Caroline, que cantarolava e embalava sua netinha, enquanto a mamãe termina suas sessões de quimioterapia. 
Não quero que você se imagine recebendo um diagnóstico como o da Carol, quero apenas que se inspire na sua superação, no poder de doação, de sorrir e ser feliz apesar de todo caos que a doença causou no momento que era para ser o mais doce de sua vida, o mais esperado e desejado momento lhe foi roubado. Para Carol, a doença não poderia ter vindo em outra hora. Pois naquele momento da sua vida, a vida da Laura era o que importava, então, todo diagnóstico, por mais monstruoso que pudesse ser, não tinha o mesmo peso, pois não pensava mais nela e sim, em Laura, do latim Laurus, simbolizando a vitória e a imortalidade, para os romanos, glória. Alguém duvida?

Manuela de Godoy Gaspari