O filho cresce, a mãe envelhece, a fotografia permanece!

Você não sabe, mas toda noite, quando subo as escadas rumo ao 2º pavimento de nossa casa, após apagar todas as luzes e me preparar para dormir, olho para suas fotos carinhosamente penduradas no vão da escada. Você está lá, emoldurado no registro de seu batizado, assoprando as velinhas do seu aniversário, ensaiando seus primeiros passos. Seus cabelos compridos, lisos, suas bochechas lisinhas rosadas e fofas, seus olhinhos brilhantes. Subo os degraus em câmara lenta para reviver cada momento que passamos e que lá se encontram, memorizados em quadrinhos coloridos. Terminado os degraus, cruzo a sua porta, olho para você, geralmente com a boquinha aberta, braços abertos ou esticados ao alto, todo destapado. Você cresceu!

Você tem apenas 5 anos, dorme sozinho, se alimenta sozinho, está aprendendo a tomar banho sozinho, usa o banheiro sozinho, escova os dentes, troca de roupas.  Você já sabe assobiar, ajuda nas tarefas de casa, aponta seus lápis e realiza suas atividades escolares na maior felicidade, não precisa mais de rodinhas na bicicleta, salga a carne do churrasco, ainda ajuda a sua irmã calçar os sapatos. Você já sabe subir em árvores, mergulhar, andar de balanço sem precisar alguém para lhe empurrar. Como cresceu, foi eu piscar e você cresceu!

Vaidoso, pede para cortar os cabelos, não sai de casa sem perfume, sem uma olhada rápida no espelho. Como aconteceu tão rápido? Quando foi que você cresceu? Observo você concentrado, juntando todos os grãozinhos de arroz no prato, sozinho, meu garotinho. Em posse do controle remoto, você liga a televisão, escolhe seu desenho, aumenta e diminui o volume. Conhece os personagens, me conta as histórias, me explica os episódios. Quando foi que aprendeu?

Pequenas sardinhas surgiram no seu rosto de pele branca, o sol já está dando sinal que passaram alguns verões desde que nasceu. Seus brinquedos e brincadeiras são diferentes, lá se foi também o primeiro dente de leite. Você cresceu tão de repente!

Ontem mesmo te embalava no colo, caminhava nas pontas dos pés para não te acordar, sentia inclusive vontade de te fazer cafuné, porém, meu receio de te acordar era maior, então me contentava em apenas te contemplar. Hoje sento ao seu lado, cubro teu corpinho gelado que estava destapado, beijo sua face, passo meus dedos entre teus cabelos, faço uma oração, te encho de beijos, vejo então como cresceu, porque nem percebeu o tempo que sucedeu, enquanto observo você.

Assim você cresceu, a cada noite de sono, a cada beijo de boa noite, a cada história, a cada canção, a cada oração. Você cresceu em cada despedida na porta da escola, a cada sorriso na hora de retornar para casa. Cada dia fica mais difícil te segurar no colo, cada dia você fica mais independente, a cada novo dia você me surpreende!

Cresce meu filho, cresce, mas não esquece, que tua fotografia continuará lá, para nos fazer lembrar que o tempo passa, as lembranças aumentam e a saudade aperta, por isso cresce, mas não esquece que tua mãe também envelhece, então, em silêncio faço uma prece para que tenhamos o tempo nosso aliado, que tenhamos sempre nossos abraços apertados, nossos segredos guardados, nosso riso desenfreado e nossos momentos guardados, quem sabe registrados, até mesmo emoldurados em algum porta-retratos!

Manuela de Godoy Gaspari