O extraordinário dia ordinário.

Era uma sexta-feira, final da tarde, o sol já estava se pondo fazendo do céu um espetáculo de entardecer, com vários tons de laranja, vermelho e amarelo. Estávamos cansados da semana, cansados daquele dia. Eu tentei questionar sobre como havia sido aquela tarde, quais atividades haviam feito, quais músicas e brincadeiras haviam aprendido. As respostas foram monossilábicas, me fazendo crer, que não existia ali, a mínima vontade de ficar conversando, então, respeitei.

Havia silêncio, mas não era um silêncio constrangedor, muito menos perturbados. Era um silêncio bom, um silêncio de paz.

Pelo retrovisor, observei que eles estavam contemplando a paisagem, cada qual em sua janela, cabeças levemente caídas para o lado, quase que encostando no vidro, talvez, até encostassem. Eu vou te amar para sempre! Ele me disse quando nossos olhares se cruzaram através do espelho. Essas palavras encantadoras, naquela voz suave de criança, quebraram o silêncio do recinto. Eu também vou te amar para sempre, amarei vocês dois para sempre, respondi sorrindo, olhando para aqueles que me ensinaram o verdadeiro sentido da palavra amor. Voltamos, cada qual para seus vidros, eu na atenção do trânsito, eles com seus olhares perdidos no espaço.

Se eu pudesse guardar aquele instante em uma gaveta, um baú, ou qualquer coisa do gênero para recordar ao passar dos anos, eu certamente o guardaria. Sim, este dia comum estaria lá, juntamente com as celebrações mais importantes e felizes da minha vida. Naquela gaveta estariam algumas passagens da minha infância, o dia que conheci meu marido, o discurso de formatura, meu primeiro dia de trabalho, meu casamento, os nascimentos do Raul e da Cecília. Então, junto com esses dias especiais, haveriam os dias comuns.

São nos dias corriqueiros, naqueles dias ditos como normais, que acontecem as coisas mais extraordinárias. Dias estes, sem data marcada, sem convites, sem expectativas, sem ansiedade de vivê-los. Não precisamos de roupas impecáveis, somente de conforto. São dias que não existem plateias ou aplausos, somos anônimos. Não ficamos aguardando, apenas vivemos aquelas horas que fomos presenteados, nos contentamos com tudo aquilo que recebemos, com o que aprendemos e também com os ensinamentos que passamos. Então, somo felizes sem perceber, sorrimos sem nos darmos conta desses sorrisos, estamos alegres aparentemente sem razão. Os imprevistos sofridos não doem tanto, os constrangimentos são menores, o equilíbrio e a sensatez são mais presentes, não temos nada a perder, não temos nada a temer, só precisamos viver.

Nos dias despretensiosos somos presenteados com declarações espontâneas, abraços verdadeiros, beijo que não foram combinados, tudo é feito sem ensaio.

É preciso curtir os dias banais. Do trivial pode acontecer o mais sensacional, pode acontecer o especial.  Em um dia qualquer você pode conhecer o amor da sua vida, pode ganhar na loteria!

Mães, em um dia qualquer os filhos aprendem a caminhar, balbuciam as primeiras palavras, não querem mais as fraldas. Não existe dia marcado para cair o primeiro dente, para andar de bicicleta sem rodinhas. Assim, sem expectativas, sem dia, hora e local, eles largam a bico, terminam a escola, escolhem uma profissão, não pedem sua opinião, te beijam, saem de casa e fecham o portão.

O tempo passa todos os dias, sejam eles especiais ou triviais.

Os dias banais, também podem ser fatais.

Todo dia comum, é um dia vital!

 

Manuela de Godoy Gaspari

Créditos: arquivo pessoal, de um dia de sol, comum.