O choro

Acho incrível nos enxergarmos em nos nossos filhos, identificarmos que o nosso sangue realmente corre dentro daquele corpo que não nos pertence. Então você fica lá observando e percebe o quanto seu existe naquela pessoa. É mágico e ao mesmo tempo assustador, porque o instinto de proteção é tão grande, mas tão grande, que se existisse alguma forma de blindar os filhos de toda e qualquer dor, frustração, mágoa ou seja lá o que for, você o faria.

Enxerguei a intensidade dos meus sentimentos através do Raul ontem à noite quando pela milésima vez ele pediu para assistirmos o DVD do seu nascimento. Ele sempre foi muito fascinado por aquelas cenas, pela trilha sonora, pelas imagens dele ali, pequeno, indefeso, aos prantos. A parte que ele mais gosta? Sem dúvida quando nossos olhos se encontram pela primeira vez e quando seu pai o pega no colo também pela primeira vez. Talvez pela proteção, talvez pelo carinho e a atenção, não sei.

Ontem, estávamos somente eu e as crianças enquanto o papai estava no estádio assistindo o seu time do coração. Eis que quando aparece a cena do papai ansioso na tela de nossa televisão, aguardando o nascimento do seu primogênito, ele mesmo, o próprio me olha com os olhos cheios de lágrimas e me fala: “que saudades do meu pai, minhas lágrimas estão querendo molhar meu rosto, igual quando eu me machuco que dói, elas são de verdade mamãe, eu não consigo segurar minhas lágrimas e eu tenho vontade de chorar, mas não é de dor eu não tenho nenhum dodói é de saudades”!

Eu o abracei fortemente e disse que podia chorar, que não tinha problema nenhum em chorar e deixar as lágrimas molharem o rosto, mesmo que não existisse nenhum dodói e assim ele o fez, chorou abraçado em mim. E eu? Obviamente que chorei também! Soluçamos abraçados e a mana nos olhando sem entender absolutamente nada!

Ligamos imediatamente para o papai que nos atendeu prontamente, acalmou o coração do pobre rapazinho que está conhecendo seus sentimentos e aprendendo a lidar com eles. Assim que entrou em casa os dois melhores amigos se abraçaram e se beijaram e não se largaram até adormecerem juntos, como se fossem uma única pessoa.

Novamente chego à conclusão que sendo pais, podemos ensiná-los sobre muitas coisas, porém, as crianças tendem a nos ensinarmos tantas outras, desde que estejamos abertos para aprendermos com elas. A saudade só existe quando há amor, quando há presença intensa e positiva, quando existe entrega e dedicação. Sentimos saudades de quem amamos, de quem nos faz bem, de quem nos dá o seu melhor. Só existem lágrimas quando existe amor ou dor. E a dor se faz presente porque em algum momento o amor esteve lá. Há quem chore de alegria, ou de tanto rir, o famoso chorar de rir e porque choramos de tanto rir? Porque o amor está na alegria, na felicidade, na intensidade.

A nossa melhor parte, está em nossos filhos, neles estão nossos melhores sentimentos, nosso amor puro e verdadeiro. Nos doamos por completo, fizemos loucuras, movemos céus e terra. Por isso pais choram quando seus filhos nascem, choram de preocupação diante de uma doença, choram de gratidão quando encontram a cura, choram quando não conseguem salvá-los de alguma dor, choram na formatura da pré-escola,  na valsa dos quinze anos, ao passarem no vestibular,  no dia de seus casamentos. Choram se seus filhos decidem morar longe, choram quando estes são adultos e não mais precisam dos pais (ou acham que não precisam!). Pai e mãe, combinam com lágrimas e com emoções inexplicáveis!

Quanto mais amor, mais evidente é o choro em algum momento, seja ele qual for, porque a vida nos prega muitos momentos que convém chorar. Qual pai já não sentiu aquele “nozinho” na garganta na apresentação de seu filho na escola? Ao deixá-lo na escola pela primeira vez? Ao deixá-lo com a babá ou até mesmo com os avós?

Como dói em nós vê-los fazer algum exame médico, ou quando nos deparamos com uma mordida de um coleguinha em suas bochechas rosadas. Como é gratificante e absurdamente emocionante quando eles nos abraçam e dizem eu te amo pela primeira vez, ou quando lhe sorriem com apenas um par de dentes ao te verem chegar!

 

O choro faz parte de nossas vidas, seja qual for o motivo, não o prenda, pois é libertador deixarmos as lágrimas lavarem nossa face, lavarem nossa alma e assim deixarmos escorrer nossos sentimentos por um instante. Se a lágrima tem gosto de soro e o soro faz curar, para mim faz sentido que o choro também cura, um remédio para alma! Chorar não é coisa de criança, nem faz de você mais fraco, na verdade faz de você mais humano, mais puro, mais amoroso. Se sentir vontade, chore, afinal, se o choro existe é por alguma razão, por algum motivo, então faça uso, faça dele seu remédio, use sem moderação, tenho certeza que lhe fará bem. Algumas pessoas precisam chorar sozinhas, outras com companhia, outras pessoas precisam de um abraço apertado para que as lágrimas consigam se libertar, outras choram tardiamente suas dores ou suas alegrias, cada pessoa ao seu modo e ao seu tempo, mas todos nós temos essa capacidade e a necessidade de chorar.

Meu gurizinho, meu doce e amado filho está descobrindo seus sentimentos, está descobrindo a vida. Preciso acreditar que esta geração está vindo para melhorar esse mundo, seres transformadores e agentes de mudança, por um mundo menos miserável e mais amável, por mais corações bondosos, por mais solidariedade inclusive para secar e acalentar o pranto daqueles que choram suas dores para que não precisem chorar sozinhos.

Manuela de Godoy Gaspari