Meus braços precisam de uma salmoura

Não faz muito, me mudei para um prédio com 16 apartamentos. Ainda enquanto levava meus pertences para o novo lar, pude perceber no elevador, mais de uma vez, a alegria dos moradores ao notarem que duas crianças passariam a habitar o condomínio.

– Que bom ver dois meninos aqui! – exclamou uma das moradoras. – Até o ano passado, não havia nenhuma criança no prédio.

De fato, no meu novo endereço, apenas três moradas têm meninos ou meninas – no andar onde moro, talvez o mais infantil de todos, o apartamento em frente ao meu reúne um casal de gêmeos de pouco mais de um aninho. E deve ter mais uma ou duas crianças em uma das coberturas. E só.

Por uma série de motivos, percebo que as pessoas ou simplesmente não querem ter filhos, ou preferem ter apenas um. Dois, hoje, já é um monte. Se na minha geração três era um número bom (eu tenho duas irmãs), atualmente, quando vou com meus pequenos, o Guilherme, de sete anos, e o Felipe, de quatro, a uma festa, por exemplo, faço toda diferença: “A grande família chegou”, dizem os anfitriões.

Eu entendo os casais que decidem ter uma vida sem crianças, apesar de não me imaginar mais sem meus rebentos. Desde que meu primogênito nasceu, preciso drenar uma parte do meu salário, todos os meses, para suprir os gastos dele – e depois de dois anos e quatro meses, criei coragem e recebi de braços abertos o Felipe, que é, sem dúvidas, o melhor presente que eu poderia ter dado para o Guilherme.

E assim criei uma rotina cara. A escola, particular, talvez seja a conta mais salgada. Mas também já passei pela fase das fraldas e dos lencinhos umedecidos, pela dos antibióticos, pela da escolinha em turno integral. Agora estou na das festas de aniversário em lugares caros, e eu não tenho dinheiro para promover festas de aniversário em lugares caros, numa gangorra financeira que sempre deixa meus sapatos, minhas roupas e meus passatempos em segundo plano. Minto: em quinto plano.

Poxa, oito anos atrás, eu fazia natação duas vezes por semana. Comprava as calças jeans com o tom do momento e viajei para Paris, Londres e Floripa sem pensar em multiplicar meus gastos por quatro. Era apenas eu e, depois, eu e minha esposa, a Jovana, mas ela pagava a parte dela. Agora, não. Agora, eu tenho responsabilidades que não me permitem entrar no Airbnb para reservar um apartamento em Lisboa, pois eu preciso comprar um boneco do Homem-Aranha ou a caverna do Batman – que, veja só, não custam muito menos do que uma passagem para além-mar. Mas está tudo bem, ora pois: Lisboa, apesar de seus predicados, não me traria a felicidade de ter meus piás.

Porque é bom, mesmo, ser pai. Apesar de eu dizer para meus amigos que eu tenho um cansaço eterno, valeu e vale a pena, todos os dias, ter escolhido o caminho da paternidade – que é o que traz sentido aos meus dias.

Simplesmente pai, então? Ledo engano.

Neste momento, por exemplo. Neste momento, meus braços doem. Se eu pudesse, os destacaria do meu corpo no final do dia, como fazem com os manequins das vitrines das lojas, deixando-os de molho por uma meia hora em uma salmoura. Pois ser pai é ser um carregador de coisas. O pai traciona a família. O pai carrega – de uma só vez – duas mochilas, 12 sacolas de supermercado cheias, um filho dormindo, os papéis do trabalho (sempre amassados e rabiscados), as chaves do carro e da casa (que sempre somem), dois brinquedinhos no bolso e um copo de plástico em que germina um pé de feijão plantado em algodão, enquanto o outro filho fica agarrado em uma de suas coxas, chorando porque o colo sempre vai para o caçula e nunca para ele. E ai de você se o pé de feijão não chegar inteiro ao apartamento: a choradeira será de pelo menos 20 minutos, ininterruptos.

Porque ser pai também é ouvir choro. Eu estou anestesiado, de tanto choro que já ouvi, muitas vezes (e ainda bem), em tom de manha. Porque a gente aprende a distinguir o choro sério das lágrimas de crocodilo logo depois que o umbigo cai. E aprende também a relevar e a ouvir, e a ouvir, e a ouvir.

– Chorem, mas chorem tudo o que vocês precisam chorar – digo, calmamente, enquanto atravesso a cidade de carro depois que pego a dupla na escola.

E assim seguimos, ouvindo um pouco de Caetano Veloso e um bom tanto de choro, como se o choro fizesse parte da Tropicália.

Dizem que minha rotina é trabalhosa (vendo de dentro, não tenho essa dimensão, embora meu maior sonho seja uma empregada doméstica). Nos dias de semana, saio cedo para o trabalho e só volto a encontrar o Guilherme e o Felipe no horário do almoço (eles ficam em casa de manhã, com a Jovana). Eu e ela os levamos para a aula, de onde eles só saem perto das 19h – fisioterapeuta, a Jovana ainda está trabalhando no começo da noite, e por isso eu os pego sozinho na escola. O Felipe, o menor, sempre dorme no trajeto de volta, no carro. O maior, o Guilherme, fica acordado. Na sequência, apanhamos minha esposa e a levamos até uma paciente que ela atende diariamente, às 19h30min. Depois, eu e os guris rumamos para casa, enquanto ela trabalha mais um pouco.

E é nesse horário que penso, todos os dias, que eu poderia ter nascido rico para ter uma copeira, uma cozinheira, uma ajudante, enfim, que eles poderiam ter vindo ao mundo mais calmos, que a vizinha do andar abaixo do nosso é uma santa (pois nunca reclama) e que meus braços deveriam estar em uma bacia de salmoura.

Nesse horário, minha versão mais bela de cabide humano mostra-se importante. Subimos de elevador até o quarto andar daquele jeito: com um agarrado na minha coxa direita e o outro dormindo com a cabeça apoiada em uma das sacolas de supermercado. Com o choro como nossa trilha sonora. Quase sempre tem choro. E às vezes também tem um vizinho me ajudando a segurar tudo isso, inclusive o meu choro, sem derrubar o pé de feijão.

– Você mora no oitavo e último andar? – perguntou o Guilherme ao proprietário de uma das coberturas dia desses, logo que o senhor apertou o botão mais alto do elevador.

– Sim, no oitavo. Por quê?

– Olhe, há dias eu queria conhecer você – respondeu o Guilherme, já me deixando com as bochechas ruborizadas. – Porque eu acho injusto você morar em um apartamento de dois andares, enquanto eu moro em um de apenas um andar. Isso é muito injusto – bradou ele, dedo em riste, olhando para cima, como um adepto ao socialismo.

– É injusto mesmo – concordou o vizinho, enquanto eu saía do elevador fingindo demência, tentando acordar o Felipe para poder destrancar a porta do apartamento.

Ao entrar em casa, respiro fundo e dou início aos afazeres de sempre. Começo dando banho para os dois. Depois, imploro para o primeiro sair do chuveiro, pois o gás custa caro. Ninguém quer ser o primeiro. Arranco o primeiro do banho. O primeiro chora. O segundo faz bullying com o primeiro, dizendo que conseguiu ser o segundo. O primeiro chora mais alto. É frio. Corro para o quarto com o primeiro, que insiste em não colocar a meia (e assim me fará gastar novamente com antibiótico, e os remédios custam caro como o gás). O segundo grita em meio ao vapor, lá do banheiro, dizendo que só sei levar o primeiro no colo, e que ele sairá do banho somente se também ganhar colo. Dou colo para o segundo enquanto o primeiro pula incessantemente na cama. Por que eles pulam tanto?

Acomodo-os em duas poltronas na sala e ligo a TV no desenho escolhido por eles. Vou para a cozinha e começo a preparar o jantar sem assistir ao “Jornal Nacional” – sou jornalista e gostaria de poder me informar, mas é melhor manter o desenho e, por sua vez, a paz do lar. Enquanto ponho a mesa, eles levam para a sala um milhão de brinquedos – como eles conseguem fazer isso tão rapidamente, se depois eu demoro meia hora para guardar tudo? O tapete da sala fica colorido, com dúzias de bonecos. Mas meus filhos querem sempre o mesmo boneco, claro. Um puxa uma perna, o outro, um braço. E aí começa a vigésima sessão de choro do dia. Levo os pratos e as xícaras para a sala de jantar com um dos dois sempre agarrado em uma das minhas coxas, enquanto piso sem querer na cabeça de um Capitão América da vida (e quase morro de dor). E escuto lamúrias, não as minhas, as deles, porque ser pai também é escutar lamúrias e pisar descalço em cabeças de super-heróis.

Às 20h30min, a Jovana chega e assume o bastão, já tão cansada como eu.

Nós dois precisamos de folga? Talvez, sim. Mas não queremos folga nem do Gui, nem do Feli. Apesar de tudo, ainda achamos melhor assim. Esse agito todo faz a nossa vida ter mais sentido. Acho que “sentido” é a palavra que mais se encaixa com estes meus tempos de carregador, de contador de histórias, de ouvinte de choro, enfim, de protagonista de mais este Dia dos Pais. Nada mais na minha vida tem sentido se eu não estiver no apartamento mais barulhento do prédio com meus dois pequenos agarrados nas minhas coxas, agora não mais recobertas pelos jeans no tom do momento. E olha que eu ainda nem aprendi a destacar os meus braços para deixá-los todos os dias meia horinha na salmoura.

 

André Benedetti é jornalista, tem 41 anos e é pai de Guilherme e Felipe.