Mãe insana, mãe bacana, mãe que se zanga!

Tenho a impressão que sou o desespero de qualquer psicóloga. Tenho plena noção de algumas atitudes erradas e mesmo assim, eu as faço por querer. Que horror? Seria eu criatura digna de muito tratamento? Seria eu apenas um ser humano cheio de defeitos, porém, consciente? 

O Raul está na fase de querer me atingir, de me ferir, fazer com que me sinta triste, culpada, para assim, conseguir aquilo que deseja. Ou seja, já faz algum tempo que ouço pelo menos umas 5 ou 6 vezes por dia: “você não é minha amiga”, “eu não gosto de você”, “queria que você não fosse minha mãe”. Isso dói, mexe lá com a minha criança interior que quer se sentir amada, como meu próprio filho pode ser assim, tão cruel comigo? 


Aquela parte racional que existe em mim procura entender aquilo que ele está sentido, aquilo que está por trás, disfarçado por essas palavras duras. Uso um pouco da psicologia que conheço, desço na sua altura, parto para um diálogo, faço de tudo um pouco, nada resolve. Criatura de pedra! Penso eu. Conforme a paciência diminui, eu já confirmo que não sou amiga mesmo, sou apenas a mãe dele. Que horror! Já propus trocar de mãe com algum coleguinha, já ameacei não voltar para casa! Que vergonha, que crueldade, que mãe desnaturada! Está bem, podem jogar as pedras agora, estou preparada, tem momentos que eu mesma me apedrejaria, de verdade!


É sério tento ser como aquelas pessoas centradas, que educam sem precisar aumentar o tom de voz, mas quando vejo, meus vizinhos devem estar todos sabendo de minhas crises existenciais junto aos meus filhos na hora de se vestirem, na hora de guardarem os brinquedos, na hora de escolherem um desenho na televisão, na hora de escovarem os dentes. Meu marido diz que eu tenho o despertador do estresse: 21h! Hora de arruma-los para dormir. Neste momento meu relógio da impaciência desperta, neste momento eu precisaria de uma psicoterapeuta colada em mim!


Na verdade, cheguei à conclusão que este é o despertador que avisa a hora da minha parte “mãe” ir dormir, deixando todas as questões da maternidade em segundo plano descansando em sono profundo, para que eu possa despertar para outros assuntos, outros afazeres, liberando meu cérebro, olhos e ouvidos para algo que não me exija tanto, que não me chame tanto, que não me peça tanto! Meu despertador interno grita por um pouco de liberdade!
Seria egoísmo, loucura ou demência? Talvez apenas a falta de uma taça de vinho tinto, silêncio, conversa de adulto, filmes com legenda, até mesmo um noticiário? Na verdade, acho que loucura é não sentir este despertador gritando por um descanso, e sim, acredito que me encaixo na grande maioria das mulheres que desempenham múltiplos papéis simultaneamente. Então, nada mais normal que se sentir louca nesta mistura de responsabilidades, de vontades, necessidades e desejos. Não é só a casa da gente que vira uma bagunça com a chegada dos filhos, mas é um emaranhado de sentimentos jogados em uma mesma caixa, cabe então, conseguir colocar cada coisa em seu lugar, o negócio é nunca parar de pelo menos tentar arrumar a nossa bagunça interior.

Quem sabe um dia, quando os brinquedos não estejam mais jogados por toda casa, eu consiga também, arrumar dentro de mim, cada coisa em seu lugar, deixando de ser o desespero da psicologia. Quem sabe um dia, eu consiga inclusive terminar este texto com um olhar mais profundo, sem alguém aqui ao meu lado querendo colocar os dedinhos em meu teclado, falando sobre desenhos de corações dourados, pedindo para comer um pedaço de bolo trufado.

Manuela de Godoy Gaspari