Eu sou bonita?

Estávamos nós almoçando no tradicional restaurante em um sábado qualquer, em mais uma aventura desta mãe e família que lhes escreve, quando a pequena Cecília não estava muito disposta a se alimentar. A diversão é o foco, comer eu como em casa! Penso que é isso que se passa naquela cabecinha em movimentos de vai e vem de um lado para o outro, fazendo com que suas marias-chiquinhas balancem seus cachinhos como se estivessem bailando no ar.

Já o mano, agarrado em uma coxa de galinha, alertava a pequena: “Cecília, quem não se comporta não ganha sorvete”!

Ela até tentava colocar um brócolis na boca, mas era só para enganar o mano, fingida como só ela!

O papai vai até o balcão da sobremesa e me olha questionando qual o sabor que deveria pegar para a doce menina de marias-chiquinhas, que nesta hora já está em pé no cadeirão olhando para o teto e achando lá em cima algo muito divertido que eu, na condição de adulta, não conseguia enxergar e me divertir tanto quanto ela.

Respondi de forma rápida e segura: morango! Afinal, ela sempre quer sorvete e picolé da cor rosa.

Eis que quando o pote de sorvete toca na mesa ela nos comunica com a testa franzida que não quer “rosa” quer sorvete de chocolate! E o potinho voou, foi parar entre o seu pé e uma parte da cadeira, equilibrado, esperando que alguém o recuperasse. Foi então que eu falei a palavra mágica: NÃO SE MEXE! Não preciso nem dizer aonde o pote foi parar.

Foi quando exclamei: que feia!

Em resposta, recebi um olhar questionador e ao mesmo tempo magoado. Em voz baixa eis que escuto: “Cecília não é feia é bonita.” E me pergunta: “eu sou bonita”?

Senti uma misto de vergonha, de culpa e encurralada por aquele olhar e pelo questionamento cheio de sentimentos.

Sim, filha, tu é bonita, mas a atitude foi feia!

Ela tem apenas dois anos e oito meses e lá estava eu falando em atitude e ela querendo saber se era bonita. Eis que ela repetiu a pergunta no mínimo umas seis vezes, todas elas com um olhar de súplica, precisando de uma resposta positiva.

Sim, filha, tu é linda, tu é muito bonita, tu é perfeita, nem mesmo a tua mãe pode dizer o contrário!

Descubro neste momento, que toda mãe é inexperiente até passar por uma determinada situação que nunca ocorreu. Não importa se já teve um ou cinco filhos, cada experiência é uma e cada questionamento é único, cada resposta que damos impensada possui um trem de complexidade em volta que nos sentimos pequenas, como se estivessemos no jardim de infância. Não aprendemos  o capítulo ou a matéria que está caindo nesta prova.

Quero que meus filhos sejam seguros de si, quero cria-los de forma que não precisem da minha ou de qualquer aprovação de terceiros para se sintam confiantes e com boa auto-estima.

Entendo que sim, que precisamos ter cuidados e que o incentivo em demasia também é prejudicial, a dosagem é fundamental para tudo na vida. Mas ela tem apenas 2 anos e 8 meses e é linda, quem sou para deixá-la em dúvida? A vida, as revistas, as amigas, os garotos, farão ela se sentir insegura e por muitas vezes ela se sentirá diminuída e isso ainda a magoará. E meu coração de mãe já aperta neste momento só de pensar.

Então, me pego olhando para ela, assim, estabanada como só ela, olhando para o teto do restaurante, rindo de algo que ainda não consegui identificar, com seus dentinhos minúsculos e separadinhos, com suas covinhas em suas bochechas, sua pele lisinha, seus olhinhos amendoados e brilhantes, seus cílios longos e curvados, suspiro e repito mais uma vez: você não é bonita minha filha, você é linda!

 

Manuela de Godoy Gaspari