Eu estava em paz quando você chegou!

Em uma roda de conversa entre amigas, uma delas comenta que gostaria de ter um segundo filho, porém, antes de tomar qualquer decisão definitiva, precisava mudar seu comportamento e seus sentimentos de angústia, ansiedade e preocupação exagerada.

Já diria Nando Reis em sua canção: eu estava em paz, quando você chegou!

Exatamente assim que aconteceu comigo. Perdi a paz quando meu menino cheio de cabelos chegou. Pode parecer exagero, mas não é! Por isso, se me perguntarem qual é o momento ideal de ter filhos, seja o primeiro ou o segundo, seguramente e rapidamente respondo: nunca!

Não pense que esta resposta é de uma mãe arrependida, esgotada ou frustrada. Também não quero contribuir para redução da taxa de natalidade, mas quero sim descontruir um pouco as mães inexistentes que encontramos diariamente nas músicas, nos livros e nas expectativas de muitas mulheres.

Isso porque não existe momento ideal, sempre haverá em sua vida desejos, sonhos, planos, projetos que parecem serem inadiáveis e prioritários frente à gestação. Sempre haverá uma viagem, uma reforma na casa, um novo curso, um novo carro. E ter filhos significa deixar em segundo plano algumas realizações, alguns sonhos de consumo, assim como é deixar para traz um pouco de paz.

Meu filho nasceu e eu me perdi de mim, muito mais que perder noites de sono, perdi minha liberdade, perdi a razão, algumas vezes perdi a noção e a medida da emoção. Ele chegou e bagunçou a minha vida e o mais engraçado de tudo isso é que gostei dessa bagunça a ponto de duplica-la com chegada da minha garotinha. Chego a pensar que essa bagunça toda é o que faltava no meu mundo. Eles chegaram na minha vida para provar que não é possível organizar tudo e todos, que muitas coisas fogem do controle, por mais que eu quisesse controlar.

Sim, ele levou a minha paz e depois que vi aqueles olhos negros pela primeira vez, já sabia que estava condenada a amá-lo, cuidá-lo, protegê-lo e educá-lo por toda a minha vida. Perder jamais, meu coração sente-se apertado, quase sufocado só de pensar em qualquer mal. Se perdi a minha liberdade? Sim, obviamente, mas não troco a prisão de seus abraços por nenhuma outra aventura. A viagem dos meus sonhos acontece toda vez que eles me contam uma história sem pé e sem cabeça. Quando aprendem uma palavra nova, quando inventam uma nova expressão ou quando conseguem dar um pulo mais alto e acham que podem voar.

Desde que nasci como mãe, não tive mais aquela paz anterior a maternidade, mas quer saber? Descobri uma paz que até então não conhecia, aquela de vê-los adormecerem em meu colo, de vê-los correr atrás de uma borboleta, de vê-los impressionados com as gotas de chuva que caem no vidro do carro e escorrem ao encontrar outras gotinhas, fazendo um pequeno risco de água na janela. Paz é voltar do trabalho e eles correrem ao meu encontro! Paz é ver o termômetro mostrar a temperatura ideal, quando cessam as cólicas, quando passam de ano na escola, quando voltam para casa de madrugada e você pode voltar a dormir sossegada.

Então, minha cara amiga, tens toda razão ao pensar várias vezes antes de decidir se terás ou não outro filho e quando tê-lo, pois a maternidade não é uma experiência somente de plenitude e de felicidade, mas não pense muito, pois independente da sua escolha, a paz já lhe foi roubada, você é mãe, sua sorte está lançada!

 

Manuela de Godoy Gaspari