Culpa da genética, será?

Desconheço o poder da genética, sei muito pouco sobre o assunto, ou quase nada, para ser sincera. Não saberei citar a fonte, mas já li ou ouvi em algum lugar que algumas doenças, como AVC, aneurisma e doença carotídea, por exemplo, resultam da combinação de fatores de risco tradicionais, de fatores hereditários não modificáveis e de estilos de vida. E o comportamento dos filhos, tem algo de genética? Acredito muito na reprodução dos exemplos dos pais, ou seja, os filhos aprendem com nossos atos e atitudes. Sim, concordo, porém, existem comportamentos para os quais não encontro explicação. Meu garoto, Raul, sempre mostrou sinais de adoração por medicamentos. Não se importando se são bons ou ruins, ele adora! Não importa se quem precisa ser medicado seja ele, seja eu, seu pai ou sua irmã: ele quer ser medicado sempre. Posso contar nos dedos quantas vezes ele recusou algum remédio. Meu filho reconhece a medicação pelo gosto e pela cor, e sabe inclusive medicar a irmã, caso ela espirre!
Primeiro, refluxo. Depois, asma, além de muitas e muitas amigdalites, tudo isso em apenas 4 anos de vida. Obviamente ele foi bastante medicado, porém apenas quando necessário. Mesmo assim, ele simula uma dor de cabeça, um torcicolo, uma dor de barriga, para me persuadir a abrir nossa farmacinha.
A primeira vez que o mocinho ralou o joelho foi uma novela mexicana. Se eu não tivesse visto o machucado, teria pensando na possibilidade de fazermos uma transfusão de sangue, pois, pelo relato, foi quase uma amputação. Precisei convencê-lo de que era possível trocar de roupas, também rezei um terço para explicar que o banho não iria quebrar a sua perna. Assim, passamos alguns dias passando mertiolate em um machucado que nem mais existia.
Mesmos pais, mesmos exemplos, mesma carga genética, porém com um comportamento avesso ao do irmão, Cecília, minha filha, foge de todo e qualquer tratamento medicamentoso. Tenho mais facilidade em medicar a cachorra, Anita, um pastor alemão de 40 quilos, do que lavar seu nariz com descongestionante, colocar um termômetro e, o mais difícil de tudo, abrir a sua pequena boca para introduzir qualquer remedinho, mesmo o mais doce dos doces. 
Por ter um filho com o pezinho muito próximo ao transtorno hipocondríaco (ironicamente falando), tenho um cuidado triplo com medicações em casa: a farmacinha precisa ficar em local quase que inalcançável. Até porque eu mesma, sem querer, já troquei descongestionante nasal por analgésico em gotas – sorte que a prejudicada foi eu mesma, que sofri uma ardência descomunal. Mas a história rendeu boas risadas quando a reação indesejada passou. 
Tenho uma amiga cuja filha conseguiu terminar com uma cartela de anticoncepcional. Passado algum tempo, a mesma criança tomou uma medicação para hipotireoidismo que encontrou pela casa. Sorte que foram remédios sem grandes efeitos colaterais, mas que, mesmo assim, proporcionaram um surto em sua mãe, visita ao plantão e muita preocupação.
A verdade é que, se existe criança, existe a necessidade de termos em casa remédios. Mesmo que o pequeno seja saudável, algum antitérmico, analgésico, vitamina, seja lá o que for, será necessário. Também é imprescindível o cuidado com a validade destas medicações: local apropriado (longe, muito longe das crianças) e, obviamente, que tenham sido receitadas pelo pediatra, evitando a automedicação, que se já é um perigo para nós, adultos, em crianças, traz um perigo dobrado.

Coisas tão banais, a que antes eu não dava importância, agora são motivo de preocupação e de cuidado. Mas, afinal, depois de ter filhos, o que não é motivo de preocupação? Quem olha para uma tomada antes de ter filhos? Quem se preocupa em ter ou guardar uma farmácia lá no alto? Assim, cuidamos com os copos, com as facas, com o fogão, com os produtos de limpeza. Tiramos as chaves das fechaduras, escondemos moedas. Nossos olhos buscam freneticamente qualquer tipo de objeto que possa significar riscos.
Minhas idas à farmácia eram tão felizes. Adorava ficar em volta dos cosméticos, testava maquiagens, fazia uso de todos os provadores que estavam a minha volta. Cheirava shampoo, conferia todas as cores dos esmaltes, adorava a infinidade de produtos: um creme para o corpo, outro para as mãos, outro para os pés, outro para os cabelos. Agora, minhas visitas são breves, tumultuadas e barulhentas. Algumas vezes cansativas, outras vezes preocupantes, e, seguidamente, divertidas, ainda mais quando estou acompanhada do meu pequeno hipocondríaco (carinhosamente chamado por mim) e da garotinha, que, assim como eu, corre os olhos rapidamente pelas prateleiras, buscando algum esmalte, batom, shampoo, creme.
Se existe, ou não, algo genético que possa explicar alguns comportamentos, eu não sei, mas posso afirmar que crianças costumam ser curiosas o bastante para mexerem, justamente, onde não podem. Possuem o dom de se aventurarem, não se importando com o perigo que nós, adultos, enxergamos. Elas vivem cada minuto intensamente, fazendo novas descobertas, explorando novos lugares, testando seus limites, enfrentando seus medos. Cabe a nós, os pais, proporcionarmos locais apropriados para que elas possam se sentir confortáveis, livres de perigos, sem riscos. Para as crianças, o mundo existe para brincar e para ser feliz, simples assim. Se isso for culpa da genética, fico feliz: significa que ainda tenho chance de olhar para a vida com esse olhar de fantasia, de riso e de diversão, afinal, carrego desde sempre esses fatores em meu DNA, sem depender, é claro, de nenhuma medicação.

Manuela de Godoy Gaspari