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Com o inverno: xixi na cama!
Com o xixi na cama: insônia!
Com a insônia: recordações da minha infância!

Não existe nada mais arrepiante que acordar no meio da noite com seu filho ao seu lado, ou então, aquela vozinha avisando “fiz xixi na cama”. Geralmente isso acontece no inverno, afinal, não basta apenas esfriar, precisa também dar trabalho, além de trazer alguns vírus e entupir nariz! Pois foiem uma destas noites geladas que precisei acordar para socorrer um xixi que havia escapado, quando perdi o sono! Neste momento passei a recordar no invernos da minha infância.

Lembro que os banhos não eram nada agradáveis, havia uma época que minha mãe esquentava álcool em uma panelinha para aquecer o banheiro, só a minha mãe fazia isso, será? Até que um dia minha irmã, 7 anos mais velha que eu, saiu do banho parecendo que havia saído de alguma guerra, toda preta. Achei estranho, afinal, o banho era para ficar limpa, certo? Foi quando ela comentou que na ausência do álcool, usou solvente de tinta. Nosso banheiro mudou de cor, uma nuvem negra de vapor tomava conta daquele espaço. Ela poderia ter colocado fogo na casa, coisa simples, tragédia pouca! Dá para entender porque alguns produtos não podem ficar ao alcance das crianças, inclusive, existem recomendações nos rótulos, mas acho que meus pais não se deram conta. Então, vamos rir para não chorar, porque após este dia, a casa ganhou uma estufa para o banheiro! Vitória!

Além dos banhos que não eram muito agradáveis, recordo de precisar fazer vaporização! Lembro de um aparelho cor telha, que ficava lançando um vapor com cheirinho de chá de laranjeira. Era necessário enfiar o carão lá no vapor e ficar respirando aquela fumacinha, só que não era assim tão simples, porque era quente, coçava o rosto, suava. Depois disto ainda tinha que passar a tal pomadinha Vick Vaporub, aquela que “respira aliviado”, quem é da década de 80 vai lembrar! Aquilo era gelado pacas, com um cheiro forte, mas depois ficava quente, era maluco, mas ficava gostoso!

Recordo das manhãs geladas que precisava pular da cama cedinho, já que estudava pela manhã. Meu pai sempre ouvia uma rádio que tocava um Jingle muito irônico, diria que até irritante que era mais ou menos assim: “são sete horas em ponto”! Aquilo que me dava uma raiva, principalmente quando estava chovendo, ainda escuro lá fora. Minha casa ficava algumas quadras da escola, naquela época, pouquíssimos pais acompanhavam seus filhos até lá, sua grande maioria partia a pé, mochilas nas costas, rumo ao grande portão para a formação da fila, esperando pelo sinal às 07h30 em ponto. Fazíamos fila para entrar na sala de aula, quase marchávamos atrás da professora, algumas vezes havia inspeção do uniforme. Sim, aquele que não estava vestindo marinho, com listras brancas, emblema da escola bordado no peito, precisava correr para casa e trocar de roupa, além de trazer a agenda com a assinatura do pai ou da mãe devidamente cientes de tal atitude do filho. Pensa no quanto era preciso correr antes mesmo da aula começar!

Não faço ideia de quanto tempo já havia passado, e meu sono nada de querer voltar, se duvidar, as crianças podiam fazer até outro xixi na cama enquanto eu estava lá, relembrando de detalhes de uma época que não volta mais. O Raul irá se formar na Educação Infantil ao final deste ano, nesta fase ele começou a identificar os amigos, dos Melhores Amigos! Então, geralmente quando ele começa a tagarelar sobre seu dia, os mesmos nomes surgem a cada nova história: os melhores amigos! A história muda, mas os personagens principais, permanecem, os demais, apenas coadjuvantes!

Eu tinha uma melhor amiga chamada Elen. Estudamos juntas do Pré até a 8ª série, na época, chamado Primeiro Grau, hoje Ensino Fundamental. Depois trocamos de escola, fomos para escolas diferentes e pouco a pouco fomos perdendo contato. Uma pena, porque rir juntas era o que mais sabíamos fazer! Toda as manhãs eu esperava ela passar na minha casa, pontualmente às 07h15 ela aparecia no topo do morro da minha casa, já sorrindo, fazendo alguma careta, ou falando alguma bobagem. Assim seguíamos nosso caminho. 
Manhãs de geada branquinha eram divertidas, tenho a impressão que não sentíamos frio, tamanha era animação de assistir paisagens inesperadas, como roupas congeladas em varais, gotas duras em torneiras, carros embrulhados em gelo. Aquela fumacinha branca saindo de nossas bocas que não paravam de contar histórias e mais histórias.

Não existia ficar na escola em tempo integral! Existia sim, uma fonte inesgotável de criatividade para ser colocada em prática na parte da tarde, seja na casa de uma, ou na casa de outra, seja na rua, com bicicleta, com bola ou com bonecas. Foi quando lá no fundo das minhas memórias, resgatei a “Rua das Formigas”, uma rua do bairro, que certamente possui outro nome, mas que assim a chamávamos, porque havíamos descoberto muitos formigueiros por lá. Então, tarde sim, tarde não, pegávamos um galinho de árvore qualquer e partíamos rumo aos formigueiros afim de provocar formigas que ali habitavam em paz, para então, voltarmos para casa com algumas picadas pelo corpo, que ficavam coçando até o outro dia.

Quando era muito frio, ou chovia muito, partíamos uma para a casa da outra, passávamos as tardes desenhando. Sonhávamos em estudar Arquitetura! Tínhamos alguns projetos desenvolvidos de casas maravilhosas, meninas prodígias! Pois bem, minha melhor amiga é hoje, arquiteta, já eu, fiz algumas curvas pelo caminho e por enquanto estou aqui, contando parte da minha história e dela também!

Meu sono não tinha mais jeito de vir, então, em pensamento fiz todo este texto, pensando em como contar essas recordações, pensei se talvez a Elen um dia irá ler e recordar as mesmas coisas que eu. Pensei nas recordações que meus filhos terão de suas infâncias, de seus amigos e melhores amigos. Que tipo de memórias o inverno deixará para eles?

Ainda encontro com minha Melhor Amiga do tempo de escola, esporadicamente, quase que contando nos dedos, em um restaurante que frequentamos, também esporadicamente. Trocamos algumas palavras, sorrimos, nos abraços e nos despedimos, sempre dizendo uma a outra: que bom te ver! E depois seguimos para nossas vidas adultas, onde os problemas são muito maiores que voltar para casa, trocar o moletom e coletar a assinatura da mãe na agenda da escola. Os perigos são maiores do que ser pega colando na prova de matemática, mas aprendemos desde crianças, que não devemos mexer em formigueiro com vara curta, porque podemos sair picadas! 

Apesar das doces recordações, ainda assim, não sou muito amiga do inverno, diria que meu melhor amigo ainda é o verão, porém, não posso negar que depois de socorrer minhas crianças de um xixi inconveniente, coloca-los para se esquentar na minha cama, junto comigo, podendo abraçar aquele corpinho tão pequeno, me sinto grande, importante, responsável, capaz de vencer qualquer intempérie por eles. Nenhum inverno é frio o bastante para afugentar o calor do amor de uma mãe!

Manuela de Godoy Gaspari
Créditos: Cy Severo Fotografia
Crianças vestem Pinoti Baby & Kids
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