A máquina de reclamar que habita dentro de cada mãe!

A maternidade é rodeada de lamúrias, reclamações, cansaço e crises existenciais. Não precisa muito tempo, nem muita atenção para notar, basta apenas reunir duas ou mais mães para as lamúrias tomarem conta da roda de conversas. Mal engravidou, já começou. Não se sabe ao certo quando tudo isso começa, talvez muitas mães nem percebam, é rotineiro, habitual, não se pensa, simplesmente se reclama.

Engravidou começou! Seja pelos enjoos, pelo inchaço, pela falta de ar, dificuldade de calçar os sapatos, de arrumar uma posição confortável para dormir, ou então, pelos palpites e comentários que jogam sobre as gestantes, pobres mulheres que precisam ouvir especialistas em gravidez, em amamentação, em parto. O estudo da barriga é algo que começa a chatear, aqueles comentários de barriga muito alta, muito baixa, muito grande, muito pequena, muito larga, muito achatada, pontuda, amassada, sei lá, sem contar que comparam a sua barriga com todas as grávidas que cruzam o seu caminho.  O mundo parece entender da sua gestação, menos você! As cobranças começam neste período, já escolheu o nome? Já fez o enxoval? Já arrumou o quarto? Já escolheu o hospital? Já escolheu os padrinhos? Já deixou comidas congeladas? Já escolheu a babá? Já escolheu a escola? E a universidade? E o dia da formatura?

A criança nasce! A pobre mãe que leu todos os livros sobre maternidade, esqueceu tudo que leu, tudo que assistiu, tudo que se informou. Teoria e prática são totalmente diferentes! Aquela maternidade que estava nos blogs e redes sociais não aparece! Onde estão aqueles sorrisos felizes, aquelas famílias lindas em volta do bebê? Pois é, lá está a mãe sem entender direito como funciona a tal amamentação, sem saber se o bebê está se alimentando direito, se chora de fome, de cólicas, de sono, ou de ter escolhido você como mãe.

É um não saber nada. É um misto de querer ajuda, mas de não querer ninguém se metendo. É querer saber como fazer e o quê fazer, mas não querer opinião, afinal a mãe é você.

Então você não dorme direito, você não come direito, você não toma banho direito, você não recebe as visitas direito, não olha para seu marido direito, sente que não faz nada direito.

Quando as coisas parecem se acalmar, quando você parece ter entendido seu bebê, seus choros, seus dengos, seus barulhos, seus sorrisos, acabou, você precisa voltar para o trabalho, a licença maternidade é só uma licença, tem início, meio e fim, e, chegou ao final.

E agora? Lá vai a mãe ter uma crise existencial, sem saber se retorna ao trabalho ou não, faz contas e mais contas, revisa todas as despesas da casa, revisa todas os orçamentos de escolinhas, pensa em todas as babás que entrevistou, olha para seu filhote lá, tão pequeno, tão frágil, sem conhecer nada da vida ainda, você não quer deixá-lo, ao mesmo tempo, sente falta daquela mulher que era, da independência, de sua individualidade, da sua rede de relacionamentos, de suas atividades profissionais.

Pobre mãe, voltou ao trabalho, acordou 2 ou 3 vezes durante a noite, está equilibrada em um salto alto, muita Mary kay para disfarçar as olheiras, tenta se concentrar em tudo que não lhe faça lembrar do seu pequeno, mas sempre tem alguém para estragar todo o seu esforço. É preciso responder com quem a criança ficou, porque você escolheu a escola e não a avó, porque você escolheu aquela escola, além de tudo, sempre haverá alguém para contar uma experiência negativa sobre a sua escolha. Você terá que responder como está fazendo com a amamentação, com o sono, com o teu casamento, com os teus finais de semana, com teus amigos.

Apesar de tudo isso, de todas essas mudanças, de todas essas lamúrias e reclamações, apesar de toda dor e sofrimento, apesar de toda negatividade em volta de algo tão bonito, você encontra pessoas que te fazem bem, que te fazem rir, que te fazem querer dividir toda essa saga melodramática, sim, essa novela mexicana passa a ter humor!

Quando você encontra mães que compartilham da mesma experiência é divertido, faz bem, é terapêutico! Você não está sozinha no mundo, você é somente mais uma mãe, você está somente vivendo tudo que envolve a maternidade! Você descobre que de tantas outras mães, você tem muita sorte de ser quem você é, da gestação que você teve, das pessoas que estiveram ao teu lado, do filho maravilhoso que tens e da graça de poder estar vivendo tudo que está acontecendo na sua vida, então você agradece!

Ser mãe não é fácil, o caminho não é simples, não existem respostas, não existe ninguém para te ensinar. Toda experiência é única, porque toda mãe é única, assim como todo filho é único. Eu particularmente acho essa peculiaridade, simplesmente perfeita, sendo a máquina de reclamar extremamente necessária, porque quando tudo passar, há de se recordar de toda e qualquer queixa, te fazendo rir e a saudade apertar!

Manuela de Godoy Gaspari