A última mamadeira!

Cada criança tem seu tempo, não adianta comparar, cada qual reage de forma diferente aos diferentes estímulos. Não é possível estabelecer um calendário cronológico para o desenvolvimento e querer encaixar todas as crianças nestas regras impostas por nós, adultos, entendedores de tudo, julgadores de todos!

Um dia qualquer, no habitual retorno da escola, meus dois filhos se chutavam no banco de traz do carro. Era uma gritaria de “para você”, “foi você quem começou”, “agora sim, você vai ver”, coisa simples, normal, rotineira, simplesmente irmãos! Foi quando tive a brilhante ideia de lançar um desafio, e assim, parar com a discussão da duplinha. Perguntei quem saberia falar “paralelepípedo”! Para mim, funcionou que foi uma maravilha, me diverti demais, foi gostoso ver aqueles tocos de gente treinando para falar corretamente, sem contar, que a brincadeira durou mais dois dias!

Na mesma tarde que a caçula Cecília, de apenas 3 anos, falou corretamente, rápido, sem gaguejar, “paralelepípedo”, eu comprei uma mamadeira novinha, rosa choque, cheinha de flores e borboletas. Não, não pensem que foi alguma recompensa por ela ter conseguido falar uma palavra difícil, muito pelo contrário, comprei porque a mamadeira dela estava chegando ao final de sua vida útil, tentamos entregá-la ao Bom Velhinho no Natal, mas não aconteceu. Negociamos com o fofinho Coelho da Páscoa, também não aconteceu, foi quando senti que ela não estava no seu tempo, e eu, como mãe, também não estava no meu tempo de entender que não teria mais minha bebê ao meu lado, tomando sua mamadeira antes de dormir e ao acordar. Não estava pronta para abandonar nossa rotina, a troca da mamadeira para uma caneca, representava muito mais que isso. Pois é, eu mãe, não quis abrir mão deste prazer, sim, porque me agrada ouvir o barulhinho dela enquanto suga tranquilamente seu leite morninho, aninhada em meu colo, ou deitada ao meu lado com seu cobertor fofo de bichinhos.

Na contramão do calendário cronológico do crescimento e desenvolvimento, ao contrário de todos os especialistas em ortodontia, me deparo com uma mãe que ainda não estava no seu tempo para o desmame. Eu compreendendo e entendo todos os malefícios de continuar com a mamadeira com 3 anos e meio. Mas são apenas 3 anos, ou já 3 anos? Para mim, mãe, são apenas 3 anos, apenas 1 metro, apenas 15 quilos, apenas uma voz fininha que sai da cama de fininho, chamando por mim, precisando de mim, querendo eu ali!

Ela ainda cansa e pede colo, precisa de um banquinho para subir na cama, outro para alcançar a pia e conseguir lavar as mãozinhas, ou escovar os dentes. Ela procura meu olhar quando se sente insegura, ainda tem medo de bruxas. Tenho certeza que ela deixará a mamadeira, e não ao contrário, não serei eu a responsável por separá-las. Talvez um dia ela precise de aparelho ortodôntico, talvez um dia queira peitos de silicone, quem sabe?

Na contramão de tudo que aprendi, entendi que não estamos encaixadas em nenhum calendário, nem eu, nem ela. Me despedi da gôndola dos produtos para bebês que eu tanto amo na farmácia, curti aquele momento de nostalgia, sorri feliz, entreguei para minha guriazinha aquela que será sua última mamadeira, deitei ao seu lado, dando a elas alguns afagos, sei que estamos com esses dias contados, por isso me permiti respeitar o nosso tempo, nosso calendário.

Manuela de Godoy Gaspari